E se eu contar que um jogador do Corinthians pintou o cabelo pela causa LGBT?

Lucas Faraldo

Escrevendo sobre o Corinthians desde 2014

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E se eu contar que um jogador do Corinthians pintou o cabelo pela causa LGBT?

Coluna do Lucas Faraldo Knopf

Opinião de Lucas Faraldo

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E se eu contar que um jogador do Corinthians pintou o cabelo pela causa LGBT?

Goleiro argentino pintou o cabelo com as cores da bandeira LGBT

Foto: Reprodução/Twitter

Se eu contasse que o jogador da foto acima veste a camisa do Corinthians, qual seria sua reação, torcedor do Timão? Qual seria a reação dos torcedores de clubes adversários?

O experiente goleiro Nahuel Guzmán, porém, não é do Corinthians. Argentino de 33 anos de idade e atualmente titular do Tigres, um dos maiores clubes do futebol mexicano, o atleta estreou o penteado colorido, inspirado na bandeira do movimento LGBT, no último sábado, durante a primeira rodada do Clausura, no México, e fez publicação nas redes sociais.

"Ano 2020 no planeta Terra. Os casos de discriminação por homofobia seguem presentes em nossa sociedade e o futebol não é exceção. Entender nossa enorme diversidade social e avançar nos direitos pela inclusão é compromisso de todos", escreveu.

Protesto similar de um jogador do Corinthians ou de qualquer outro time brasileiro não seria nada mal. No país do futebol, morre uma pessoa vítima de homofobia a cada 16 horas. Entre 2011 e 2018, foram 4.422 assassinatos (552 por ano) motivados por ódio contra LGBTs.

Esses e outros dados foram divulgados há menos de um ano em reportagem do portal Uol, que teve acesso a um relatório formulado por Julio Pinheiro Cardia, ex-coordenador no Ministério dos Direitos Humanos. Para mais detalhes, é só conferir aqui depois.

Não precisamos ir muito longe para entender o quão homofóbica é ainda nossa sociedade. Nos últimos dias foi relatada aqui no Meu Timão e em todo o noticiário esportivo nacional a polêmica em torno da camisa 24, com direito a piada de um dos mais respeitados dirigentes do futebol brasileiro sugerindo veto do Corinthians ao número do veado – no jogo do bicho.

Uma reportagem aqui do Meu Timão, intitulada "A discriminação (não) estampada por trás da camisa 24", detalhou o tamanho do preconceito contra gays no ambiente do futebol – não só corinthiano e também não só em torno das tais camisas com número 24.

No futebol (que é um reflexo da sociedade), qualquer associação à bandeira LGBT tende a ser mal vista (seja a bandeira literal mesmo, com as cores do arco-íris, seja o número 24, seja a cor rosa – extraoficial e historicamente vetada junto com a verde no uniforme corinthiano). Por quê? Somos torcedores homofóbicos? Temos medo da homofobia de torcedores rivais?

É um exercício de reflexão...

Tem ainda viralizado nas redes sociais também uma fofoca (com carinha de fake news) sobre um jogador do Corinthians que supostamente teria traído a esposa com um colega de elenco. Não entro no mérito da veracidade. Mas e se fosse real? Traição à parte, o relacionamento entre colegas de trabalho não é nada incomum Brasil e mundo afora (no esporte, há casos famosos do vôlei como os de Murilo & Jaqueline e Bernardinho & Fernanda Venturini).

Estimativa reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça ainda em 2009 apontava para cerca de 18 milhões de pessoas como parcela homossexual assumida da população brasileira. Isso sem contar outros tantos milhões que escondem a orientação sexual! Será que alguém acredita que entre mais de 600 jogadores da Série A do Brasileirão não tem homossexuais?

Eles estão ali sim. Um ou outro talvez no Corinthians. E certamente aos milhares nas arquibancadas de Itaquera e de todo o país. A grande maioria escondida com medo da homofobia – aquela que mata uma pessoa a cada 16 horas em terras brasileiras.

Nahuel Guzmán, que originou o texto dessa coluna com seu cabelo colorido, esteve pela seleção argentina na última Copa do Mundo, disputada na Rússia. O maior país do mundo em extensão tem uma lei que proíbe beijo gay sob risco de prisão. Sede do próximo Mundial da Fifa, o Catar vai além: pune homossexualidade com prisão perpétua ou até pena de morte.

Nós, assim como o futebol, vivemos um mundo ainda muito homofóbico. Levantar o debate e o alerta para as consequências da homofobia é um ato muito bonito de Guzmán. E aí volto para a pergunta que abriu o texto: e se eu contar que um jogador do Corinthians fez igual?

Veja mais em: Torcida do Corinthians e Victor Cantillo.

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Por Lucas Faraldo Knopf

Jornalista pela ECA-USP e ex-Esporte Interativo, Jovem Pan e Lance!. Hoje trabalha no Meu Timão. Autor do livro 'Impedimento - Machismo, racismo, homofobia e elitização como opressões no futebol'.

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