És do Brasil – O quê, o quê?

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

ver detalhes

És do Brasil – O quê, o quê?

És do Brasil – O quê, o quê?

'Mas que mal há em ser feliz, quando assim for possível?'

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Vejo alguns irmãos e irmãs, corinthianos e corinthianas, um pouco constrangidos ao torcer pelo Brasil com ardor e paixão.

Meio que se desculpando para São Jorge por uma eventual blasfêmia. Morrendo de medo de uma punição cósmica. De gastar os pedidos aos céus, esperando uma vitória brasileira, e lá na frente isso fazer falta para uma vitória do coringão do nosso coração.

Relaxa, galera. Pode torcer com muito amor. Pode amarrar o pé da mesa. Acender vela. Pode deixar um espacinho para a bandeira do Brasil ao lado da estátua de São Jorge. Pode gritar na hora do gol, abraçar o amigo, soltar rojão. Pode até mesmo abrir a janela de casa e gritar “Vai Brasil!”. Tá tudo liberado.

A verdade é que a gente não ama apenas uma coisa ao longo da vida. A gente gosta de feijoada, mas também gosta de lasanha. Claro que se misturar fica uma porcaria. A gente gosta de uísque, de vinho, de cerveja, de cachaça. A gente ama a mãe da gente. Ama também a mulher da nossa vida, cada uma de um jeito, obviamente.

Acontece que o amor que temos pelo Corinthians é incomparável. Nada pode ser igual a esse amor vagabundo. O Corinthians é uma tatuagem na nossa alma. Uma cicatriz no nosso caráter.

O Corinthians é esse amor louco, mas é também um amor bem resolvido.

O amor bem resolvido não desperta insegurança. Dispensa escândalos e ataques de ciúmes. O amor bem resolvido é cúmplice e seguro de si.

O amor pelo Brasil e o amor pelo Corinthians são bem diferentes, pois o primeiro diz respeito ao sentimento de nacionalidade. Já o amor pelo Corinthians fala mesmo é de identidade.

A gente sabe muito bem o que é ser brasileiro. É fazer parte de um conjunto de construções sociais e culturais. É fazer parte de um milagre. De uma experiência civilizatória grandiosa. É saber que esse conjunto de miscelâneas, diversidades, experiências, encontros, culturas, raças, gostos, sabores e desejos nos faz muito mais do que um país qualquer num lugar qualquer com um povo qualquer no mundo. É saber que somos uma nação muito maior do que o nosso Estado. Que somos um povo muito maior do que as nossas elites. Que temos valores culturais e humanos muito maiores do que a ganância e o egoísmo que prevalecem. Que somos especiais, mesmo nas derrotas que nos são impostas. Que somos muito melhores do que nos apresentam na televisão. Que temos uma força espiritual tão incrível que nossos inimigos ocultos utilizam nossa energia contra nós mesmos, colocando-nos uns contra os outros. Que continuamos existindo como um milagre da natureza, mesmo com negociatas e mais negociatas na calada da noite, dilapidando as nossas riquezas que deveriam ser utilizadas para a felicidade da nossa gente.

O Corinthians é o lado b do Brasil. É a consciência de classe possível dos nossos dias. São os olhos abertos do gavião. É a capacidade crítica. Não que estejamos livres da tolice e da mediocridade geral dos nossos dias, mas somos o time do povo. O povo! Com seus infinitos recursos e mágica sabedoria, mas também com suas limitações e desatinos. O povo que tem tudo e o povo que não tem nada! O povo que sabe muito e o povo que é enganado. O povo que vence e o povo que é derrotado. Onde habita o amor mais especial da nossa gente e, também, onde há o acalanto e ressignificação das desgraças cotidianas. Onde vencemos como brasileiros e onde somos brasileiros justamente nas decepções. O Corinthians é a vida real do Brasil, muito além do país tropical, bonito por natureza. Aqui a vida é louca. Não somos fla fla e nem me me… Aqui é Corinthians e a chapa esquenta! O time das vilas e favelas. Dos busões lotados. Do clima hostil. Da friagem que dá dor de garganta. Do trânsito carregado. Da hora extra nas fábricas. Somos o time de quem é obrigado a ser o último a sair do escritório. De quem está acostumado a dar sua cota de sacrifício. O time de quem está camelando por um emprego há tempos. Nós somos o Brasil em preto e branco!

Mas que mal há em ser feliz, quando assim for possível?

Que mal há em receber alguma alegria desse Brasil tão sofrido como a nossa torcida?

Que mal há emprestar um pouquinho do nosso corinthianismo para a nossa seleção?

O nosso Corinthians não pertence a nenhum dirigente, cartola ou ditador que no timão quiser mandar. Da mesma forma, o Brasil é muito mais do que o Temer. Muito maior do que aquela merda da diretoria da CBF.

Já oferecemos ao Brasil a experiência existencial que o Tite viveu no nosso chão, que certamente o transformou. O Corinthians ajudou a construir essa seleção do Paulinho, do William, do Marquinhos, do Fagner, do Renato Augusto, do Edu Gaspar, do Silvynho, do Cássio e de tantos outros jogadores que lá estão que sequer conseguem esconder o sentimento de “Vai Corinthians” que permeia essa seleção.

A Copa do Mundo certamente é uma das maiores invenções da história da humanidade.

É também uma chance especial para o corinthiano relaxar um pouco, sem tanto sofrimento. De assistir aos jogos ao lado da família. Quantas são as vezes em que saímos para o estádio bem no dia das mães, dias dos pais, aniversário dos sobrinhos, e por aí vai….

Na Copa do Mundo temos a chance de assistir aos jogos ao lado da tia, do cunhado, da mãe, do vizinho, do cachorro que a gente levanta na hora do gol!

É o momento que a gente tem de assistir ao jogo fantasiado. Convenhamos, tirando uma ou outra figura carimbada, ninguém vai ao estádio para ver o jogo do Corinthians vestindo fantasia. É a chance de fazer palhaçada. Fazer também todos os outros testes e simpatias que não faríamos com medo de ser pé frio.

Outra coisa interessante, na Copa do Mundo a gente pode assistir aos jogos do Brasil ao lado dos torcedores dos outros times. Dá até pra abraçar esses cabras na hora do gol. Esquisito pra cacete! A gente até diz, silenciosamente para nós mesmos: “esses caras torcem estranho”. Mas tá valendo. É de quatro em quatro anos. A gente, para ser feliz, tem que relaxar um pouco. Uma coisa que a maturidade tem me ensinado: não dá pra levar tudo tão a sério. Temos que ser mais humanos e carregar alguma leveza dentro da gente. Nutrir aquela paz interior!

Nação corinthiana, vamos torcer por esse Brasil que há tempos não tinha um time tão bacana que carrega também um pouco da nossa cara.

Mais do que isso, sejamos felizes. Quem sabe a Copa do Mundo não cumpra esse papel de fazer com que o nosso povo comece a se entender de novo. Vivemos um ciclo de ódio muito ruim e muito feio. Mesmo na nossa torcida. Chega de tanta raiva no coração. De tanta amargura. Hoje em dia, as pessoas só parecem ser legais quando se parecem com a gente ou quando concordam com nossa visão de mundo. Tá errado! A gente tem que reaprender a crescer com o próximo.

Nós sabemos do que a Fiel é capaz. Vamos ser generosos e transmitir a nossa energia para o povo brasileiro. Quero mais é amor no coração. Chega de tanto ódio.

Corinthians grande! Sempre altaneiro. És do Brasil o clube mais brasileiro!

Veja mais em: Corinthianos na Seleção.

Coluna do Rafael Castilho

Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

O que você achou do post do Rafael Castilho?

  • 1000 caracteres restantes