Comunhão corinthiana

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Comunhão corinthiana

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Comunhão corinthiana

Mais de 30 mil pessoas compareceram à Arena na manhã de sábado

Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Trinta e dois mil fieis foram acompanhar o Corinthians em seu último treino antes do jogo decisivo contra o Palmeiras em Itaquera.

O mais importante não é a “façanha” da torcida. Quem lá esteve não foi para exibir um feito. Do mesmo modo que uma mãe não nutre por seu filho um amor devoto e incondicional apenas para mostrar o tamanho do seu amor. Uma mãe ama um filho porque o ama mesmo, sem tantas explicações. Porque é parte da sua natureza. Enfrentar um leão numa floresta pra defender um filho desesperado, não é nenhum feito de coragem para uma mãe. É simplesmente a única coisa que é possível se esperar dela. Enfrentar a floresta e derrotar o leão, o urso, o tigre ou qualquer outra fera.

Sim, já está na história esse treino do Corinthians. Mas pra quem está com a garganta seca, com o coração disparado e a voz embargada há algumas semanas era o mínimo que podia ser feito. Outros tantos que não estiveram em Itaquera nesse treino também deixaram lá seu coração. Não pensam em outra coisa. Querem ver o Corinthians vencer!

Centenas e milhares de analistas, comentaristas, treinadores, torcedores em seus botequins tentam conjecturar uma grande teia de circunstâncias para explicar a ascensão inesperada e a atual queda de rendimento do Corinthians. Mas entre tantos acontecimentos possíveis de serem explicados do ponto de vista tático e técnico do jogo jogado dentro de campo, é possível dizer que o Corinthians conseguiu vencer brilhantemente o Campeonato Paulista e se inseriu de maneira surpreendente como favorito ao título do Campeonato Brasileiro por uma insubordinação. O Corinthians não fez nada além de “ser Corinthians”. Não havia no começo do ano nenhum corinthiano que não soubesse as limitações técnicas desse time. Mas o Corinthians resolveu viver uma aventura louca. Se jogou ao mar. Se lançou ao espaço. Enfrentou todos os exércitos do mundo.

O Corinthians só chegou onde chegou pelo amor da torcida. Foi justamente naquele Corinthians x Palmeiras, o primeiro do ano do centenário desse clássico, quando havia data, local e horário para nossa humilhação que nos superamos. Vencemos de maneira épica. O corinthiano, cheio de saudades daqueles times nostálgicos do Corinthians que eram limitados, mas cheios de garra e coragem, abraçou esse elenco que era desprezado por todos e foi lutando jogo a jogo até chegarmos aqui. Claro que existe a fadiga. Claro que existe o cansaço. Claro que alguns soldados estão cheios de dúvidas, medos, indecisões. Claro que o diabo nos momentos de dificuldades, sussurra no ouvido para testar a fé de cada um de nós.

Novamente, as forças que precisam ver o Corinthians abatido marcaram data e horário para nossa humilhação. Decidiram que seria hoje. Precisam dobrar a nossa coluna do mesmo modo que precisam de um povo fraco e subjugado. Mas tem uma coisa, agora que aqui chegamos teremos que ganhar. Nossa responsabilidade não é mais pelo título, é pela força da nossa gente. Esse Corinthians operário merece vencer. Será uma grande superação. Sim, meus amigos, o ano foi longo e pesado. Alguns de nossos atletas que iniciaram o ano como operários talvez tenham fraquejado e esquecido suas condições. Mas a fiel já se juntou num fraterno abraço para acolher o time nessa reta final.

Na minha vida em Corinthians, talvez uma cena tenha me marcado mais do que tantas outras. Numa viagem à Belo Horizonte para ver o Coringão jogar, vi um rapaz que fazia parte de uma de tantas caravanas que viajaram até o Mineirão. Ele comia um sanduiche. Um outro coringão se aproximou e pediu um “teco” do lanche. O rapaz reclamou e negou a mordida. Num instante se aproximou uma liderança da torcida e deu um grande esculacho no rapaz. Disse ele: “você pensa que eu não vi o que aconteceu? Você passou a viagem toda tomando a cerveja e o goró de todo mundo. Bebeu no copo de todos. Agora na hora de dividir um pedaço do seu sanduíche você nega para o irmão? Isso não é Corinthians! No meu ônibus você não vem nunca mais!”. Aquela experiência para mim foi definidora em termos de Corinthians.

Digo isso porque hoje é dia de dividirmos o mesmo lanche. É dia de dividirmos os mesmos tambores e batuques. É dia de dividirmos a mesma voz! Amigos, não é dia de acusar nenhum irmão corinthiano de nada. Sei que temos diferenças. Vivemos numa sociedade em que as pessoas se acostumaram a estarem cercadas apenas por quem concorda com elas. Com quem repete mais do mesmo do que acreditamos. Mas, hoje é dia de comunhão. O Corinthians é a história de uma grande comunhão. Hoje é dia de sermos movidos por grandes sentimentos de amor. De nos unirmos em vibrações positivas, boas energias.

Hoje é dia do Corinthians ter presença de espírito! Dia de superação. O Corinthians nada mais é do que uma vontade coletiva. O Corinthians faz coisas que ninguém acredita porque seu povo assim o quer. De verdade, nós vencemos o invencível porque sempre queremos mais do que os outros. Não somos corinthianos no estádio. Vivemos o Corinthians a cada segundo. Em nossas vidas, em nossas casas. O Corinthians é nosso filho, nosso irmão, nosso pai, nosso amigo. O Corinthians é espiritual. Ele paira no ar. O Corinthians é tudo aquilo que mais amamos. Ele é energia que sai da respiração de toda essa gente. O Corinthians é metafísico.

Esse jogo teremos que ganhar. Não pelo campeonato de 2017, mas porque o nosso povo precisa dessa comunhão. Vivemos dias duros e sofridos. Tudo é tão difícil. As pessoas não se entendem. O ódio tem tomado conta da vida social. Mas, o Corinthians, meus irmãos, é o resultado do sonho de trabalhadores sofridos que buscavam nesse clube justamente isso: o encontro! A comunhão de tantas vidas desgarradas pelas guerras, pelas secas, pela opressão, pelas privações. São tantas histórias diferentes que formam essa força chamada Sport Club Corinthians Paulista. Agora aqui estamos, e São Jorge guerreiro irá nos acompanhar nessa grande batalha.

O amor nos trouxe até aqui. Sem o amor da nossa comunidade corinthiana jamais ambicionaríamos nesse ano o Campeonato Brasileiro. Mas o amor e a coragem nos fez sonhar e acreditar. Agora não vamos retroceder. O amor também será o nosso guia e nosso combustível no dia de hoje. Já superamos tantos obstáculos. Já vencemos tantas batalhas. Pois então estejam certos que superaremos mais esse obstáculo e venceremos mais essa batalha.

Vai com Deus, Corinthians!

Veja mais em: Torcida do Corinthians e Dérbi.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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