Sheik: sofredor, maloqueiro e corinthianista

Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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Psicologia da malandragem: conquista da Libertadores

Foto: Arte

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Sheik pode até ser, desde tenra idade, torcedor do rubronegro carioca, mas se tornou corinthianista. Pois, sem querer, seguiu o ensinamento de Nietzsche: torna-te quem tu és.

Emulou Sócrates, que teve infância santista mas se deixou tocar pelo espírito mágico proletário de 1910.

Sheik pode ser herói e anti-herói, como convém nas grandes sagas do Time do Povo, nas quais cada protagonista exibe seus pecados e virtudes, típicos da condição humana.

O filho de Nova Iguaçu já errou, já deu menos do que podia, já nos irritou com seu espírito por vezes volúvel, no qual a irreverência beira a irresponsabilidade.

No entanto, sua história o redime. Seus feitos o colocam na galeria dos grandes personagens da formidável história da centenária instituição dos carroceiros do Bom Retiro.

Sheik vem dos estratos desamparados da população, exilados dentro do país por uma elite mesquinha, violenta e que nunca perdeu o hábito escravocrata.

Vem da perifa brava do Rio. Se o Timão nasceu da várzea do Carmo, nos pés enlameados dos meninos do Botafogo paulistano, Sheik teve sua primeira casa numa várzea ocupada pela mãe trabalhadora.

Quebrou-se muita pedra para sustentar a morada da família, erguida na arquitetura do impossível, no alicerce da fé dos resistentes.

Sheik foi menino dos campinhos, como milhões de outros garotos brasileiros, esquecidos pelo Estado, desprezados pela lógica capitalista, compelidos a ver o sentido da vida em um drible, uma cobrança de falta, um gol no crepúsculo da pelada.

O menino Sheik desenvolveu assim sua habilidade de ver o mundo, constituída naquela malandragem ensinada dentro das quatro linhas.

As esquinas da vida eram os escanteios, os árbitros eram a polícia, as redes estufadas eram as utopias de uma vida digna.

Foi "gato", por necessidade, em um país de judiciário seletivo, em que o braço da lei cai preferencialmente sobre o preto, o pobre, a puta e outros "pês" dos territórios da exclusão.

Um dia, acabou preso diante da família, conforme a receita de alarde humilhante seguida por nossas autoridades: aquelas da algema, aquelas da toga.

Acabou condenado, pagou multa e serviços comunitários. Terminou reconhecido na Terra do Sol Nascente e nas areias das Mil e Uma Noites. Se aqui era um pária, lá, estranhamente, era um igual.

Predestinado, retornou à pátria mãe, quase sempre nada gentil, e foi brilhar nos campeonatos brasileiros, que enfileirou por clubes diferentes.

Tinha que jogar no time dos danados, dos excluídos, dos proscritos, no time que a elite queria extinto em seus primórdios.

E aqui, nesta casa também de várzea gloriosa, encontrou seu lugar mais perfeito.

Predestinado, calou a Bombonera com a mais bela assistência da história das Libertadores. Elástica, veloz, genial, mística. Romarinho concluiu.

No nosso Pacaembu, como mais um predestinado, anotou os dois tentos contra o poderoso visitante.

Fantasticamente inconveniente, angelicalmente provocador, loucamente teatral, fez o adversário arrogante perder a linha. Encarou, troçou e mordeu, como se faz necessário na milonga travessa que é a Libertadores.

Na sequência, é também ponto na tecitura do gol que nos conduziu ao segundo mundial de clubes da FIFA, o único que vale para o planeta.

Sheik foi passear e voltou para a casa que lhe serve como roupa, em tamanho, cor e estilo. Antes, fez a boa subversão, ao expressar-se e apontar a gestão vergonhosa da CBF.

E também xingou um juiz ladrão. Quem não gostaria de exercitar esse atrevimento?

Sheik fez a sua pedagogia até aqui, desafiando os tontos homofóbicos. Seu selinho lúdico e erótico retirou a máscara dos idiotas do mofado moralismo conservador.

E fica, por último, a narrativa do amigo fotógrafo Daniel Augusto Junior, que viu o boleiro careca "roubando" a comida boa de um lauto banquete dos atletas magnatas.

Depois, foi saber: secretamente, Sheik levava os acepipes para os funcionários do clube, os seguranças, isolados sob a garoa das portarias escuras.

Sheik, no erro e no acerto, nem demônio nem santo, é "nóis tudo": um cara do arroz, feijão e ovo, como os corinthianos mais simples, das favelas, das periferias, dos rincões, um resistente, um brasileiro que ousou se tornar protagonista.

Obrigado, mano! Esta é sua casa, porque aqui é Corinthians!

Veja mais em: Emerson Sheik e Ídolos do Corinthians.

Coluna do Walter Falceta

Por Walter Falceta

Walter Falceta Jr. é paulistano, jornalista, neto de Michelle Antonio Falcetta, pintor e músico do Bom Retiro que aderiu ao Time do Povo em 1910. É membro do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO).

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