Ex-Corinthians relembra saída polêmica e imbróglio com o Timão em retorno ao Brasil
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Por Victor Godoy
Keven deixou o Corinthians ao fim de 2022 após acertar com o Almería, da Espanha
Marco Galvão/Agência Corinthians
Em 2022, a base do Corinthians conviveu com dores de cabeça pela situação do meia Keven, que vivia seu último ano de contrato. Destaque do Sub-20 em 2021 e com passagem pela Seleção Brasileira, o jovem chegou a treinar com o português Vítor Pereira antes de ser afastado e, posteriormente, deixar o Parque São Jorge de graça para o Almería, da Espanha.
À época, o Meu Timão trouxe que a oferta do Corinthians era de três anos, com salário progressivo, além de luvas, que lhe renderiam cerca de R$ 1,5 milhão até o fim do vínculo. Agora, três anos depois, o portal conversou com Keven, que explicou que o Timão só foi atrás de sua renovação quando estava tudo certo com o Almería.
"Aquele ano eu achei que realmente seria o ano em que eu pudesse ter uma sequência no profissional. Pelo ano que eu fiz anteriormente (2021) no Sub-20, pela Copinha... Acabou que na hora de fazer o contrato de renovação com o clube não deu certo. Da parte do pessoal (do Corinthians), faltou um pouquinho de comunicação, porque na época eles me afastaram dos jogos. E a princípio eu não sabia o que estava acontecendo. E foi passando o tempo, foram passando os dias, e faltando seis meses para acabar meu contrato, eu tive uma proposta de um outro clube (Almería)", contou em entrevista exclusiva ao Meu Timão.
"Como não tive uma resposta do Corinthians, acabei optando por assinar com outro clube. Já tinha esperado muito tempo e a gente não obteve resposta. Não chamaram para uma renovação. Acabei optando por assinar e garantir o meu futuro. Faltando um mês, o clube (Almería) notificou o Corinthians de que havia assinado um pré-contrato. Aí resolveram vir atrás e conversar, só que eu sentei com a minha família, com meus pais, e decidi que era a melhor opção mesmo sair", complementou.
Assim, no início de novembro o Corinthians fez a oferta, mas já era tarde, pois Keven estava certo com o Almería. O jovem, porém, destacou que sua ideia era seguir no Parque São Jorge. "Não teve essa troca. O que chegou a mim foi que eles fizeram uma proposta e eu disse 'legal, onde a gente assina?' Só que não tinha onde assinar. Foi uma proposta de boca. Não tinha o que assinar, não tinha um contrato físico para a gente olhar e discutir", comentou o jogador.
"Ficamos chateados, porque eu estava no clube há muito tempo e faltou um pouco de cuidado. Quando havia outro clube interessado, aí resolveram fazer alguma coisa. Faltou um pouco de conversa. Eu não tive conversa com ninguém. Não vieram falar comigo 'ah, é assim mesmo, espera que a gente vai fazer'. Só tive uma resposta mesmo quando chegou o aviso do outro clube e vieram assim 'você está fazendo errado; é política do clube, já estava planejado; a gente ia enviar uma proposta'. Quando faltava um mês para acabar o contrato - em novembro - vieram conversar. Não chegasse essa notificação, às vezes nem correr atrás eles correriam. Na hora, preferi assinar alguma coisa, garantir meu futuro do que esperar outra coisa", completou.
Apesar de perder Keven, o Corinthians recebeu cerca de 400 mil euros (pouco mais de R$ 2 milhões à época) de training compensation, um mecanismo da Fifa para indenizar os clubes formadores desses atletas. O valor entrou em evidência no último ano, pois foi com ele que o Timão contratou o centroavante uruguaio Franco Delgado para o Sub-20, que rescindiu com o clube pela Justiça após abrir processo de R$ 600 mil por atraso no pagamento de FGTS.

Keven ficou dos cinco aos 19 anos no Parque São Jorge. Quando foi afastado, vinha participando de alguns treinos no profissional com Vítor Pereira
Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians
Na Espanha, Keven não teve o sucesso esperado no Almería e decidiu retornar ao Brasil no início deste ano e acertou com o Pouso Alegre, de Minas Gerais. O acordo, porém, foi frustrado pelo clube do Parque São Jorge. Ainda em 2022, o Corinthians enviou à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e à Federação Paulista de Futebol (FPF) um ofício solicitando "que não seja permitido o registro de nenhum contrato entre o atleta e uma nova entidade de prática desportiva". No documento a que o Meu Timão teve acesso, o clube sustenta o pedido pelo sétimo parágrafo do artigo 29 da Lei Pelé (n.º 9.615/1998):
"Art. 29. A entidade de prática desportiva formadora do atleta terá o direito de assinar com ele, a partir de 16 (dezesseis) anos de idade, o primeiro contrato especial de trabalho desportivo, cujo prazo não poderá ser superior a 5 (cinco) anos.
§ 7º A entidade de prática desportiva formadora e detentora do primeiro contrato especial de trabalho desportivo com o atleta por ela profissionalizado terá o direito de preferência para a primeira renovação deste contrato, cujo prazo não poderá ser superior a 3 (três) anos, salvo se para equiparação de proposta de terceiro", diz a Lei Pelé, que estava em pleno vigor na época.
"Foi boa a experiência de morar fora, só que no campo mesmo não foi tão bom assim. Acabei que não tive muita oportunidade, joguei pouco. O treinador não gostava tanto das minhas características. E aí eu decidi voltar para o Brasil depois de um ano e meio na Espanha e surgiu a proposta do Pouso Alegre para disputar o Campeonato Mineiro e a Copa do Brasil. Aceitei na hora. Voltei para o Brasil e, quando o clube foi fazer o meu registro na CBF, viram que tinha uma notificação do Corinthians me bloqueando de atuar no Brasil", contou Keven.
"Na notificação, eles alegam que eles teriam o direito à minha primeira renovação. Só que na época que eu fui para fora, o clube teve que pagar um negócio (training compensantion) mediante a Fifa para o Corinthians. Então, não tinha mais nada para o Corinthians receber. Quando eu volto, descubro que o clube alega que teria que receber uma porcentagem", reforçou.
Em 2022, Duilio Monteiro Alves ainda era o presidente do Corinthians. Quando retornou ao Brasil, Keven e seu estafe chegaram a conversar com Augusto Melo, que teria pedido 50% dos seus direitos econômicos para liberá-lo em caso que quase foi parar na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD). Foi apenas com Osmar Stabile que essa questão se resolveu.
Assim, Keven foi liberado em julho e diz estar negociando com equipes para disputar algum Estadual em 2026. Pela falta de minutos em campo, nenhuma conversa evoluiu para acertar com uma equipe ainda nesta temporada.
Conselhos de Vítor Pereira e outras memórias de Corinthians

Nascido em 2003, Keven pertence à mesma geração dos zagueiros Robert Renan e João Pedro Tchoca, do volante Ryan e do atacante Giovane, que se firmaram no profissional do Corinthians
Rodrigo Coca/Agência Corinthians
Natural da Zona Leste de São Paulo, Keven chegou ao Parque São Jorge aos cinco anos e saiu com 19. Sempre tratado como promessa, acumulou chamados para os times Sub-16, 17 e 18 da Seleção Brasileira enquanto também se destacava nos times juvenis do Corinthians.
| Ano | Jogos | Gols | Amarelos | Vermelhos | Aprov. | V/E/D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Sub-20 | 37 | 10 | 5 | 0 | 56% | 18/8/11 |
| Sub-17 | 37 | 4 | 5 | 1 | 64% | 22/5/10 |
Nessa etapa de formação, o jogador fez questão de enaltecer alguns nomes: o ex-jogador e atual auxiliar do Sub-20 B do Corinthians Zé Augusto; Vinícius Marques, que atualmente comanda o Sub-20 do Santos; Leandro Macagnan, atual auxiliar do time profissional do Bahia; e Gustavo Almeida, hoje treinador do Sub-20 do Bahia.
"Eu começo de ponta, só que no Sub-14 o Zé Augusto me coloca de meia. Dali para cima virei meia. O Zé me deu moral para caramba, tenho uma amizade com ele muito grande. Ele faz você se dedicar bastante aos treinamentos. É um cara fundamental em uma grande parte da minha passagem pelo Corinthians", rememorou o jovem.
"Tive o Vini Marques no Sub-11, o Leandro Macagnan no Sub-15. O melhor treinador que eu tive na base foi o Gustavo Almeida, no Sub-17. Ele foi fundamental para mim no meu pensamento de jogar, tanto como ponta quanto como meia. Acho que graças a ele e à comissão dele, tive uma mudança muito gradual do meu estilo de jogo", enalteceu na sequência.

Pelo Corinthians, Keven disputou a Copinha de 2022 e foi um dos destaques da equipe comandada por Diogo Siston, que também contava com destaques como Léo Mana, Robert Renan, Matheus Araújo, Biro, Giovane e Felipe Augusto
Rodrigo Gazzanel/Ag. Corinthians
No último ano de clube, Keven ainda trabalhou com Vítor Pereira. "O VP foi um treinador que achei que daria muito certo. Assim que ele chega, eu já estava com a equipe profissional na primeira semana dele. Até comentei para o meu pai que ele daria certo. Ele cobra, está em cima do jogador para melhorar, aprender. Ele era um cara muito exigente. A comissão dele, os treinos eram muito intensos", comentou o jogador. "Ele ficava muito em cima para melhorar. Eu como meia, ele sempre falava que eu tinha que jogar com a cabeça levantada, prestar atenção já no que eu vou fazer antes da bola chegar".
Keven seguiu treinando até abril de 2022, quando foi afastado pela questão contratual e não vestiu mais o manto alvinegro. Apesar disso, o jogador disse guardar com carinho um episódio com Vítor Pereira.
"Teve até um episódio no primeiro treino dele. Quando acaba, ele estava conversando comigo e o Robert (Renan). Ele bate na minha cara e fala para o Duilio, que estava do lado: 'Duilio, é desses caras aqui que eu gosto.' Foi um treinador que evoluiu meu jeito de pensar no treinamento. A comissão dele gostava muito de treino e muda muita coisa da base para o profissional. Foi uma diferença que vi que valia a pena", relembrou.
"O Fábio Santos era um dos caras que chamava para conversar, dava atenção. O Willian também falava bastante, ajudava bastante. O Róger Guedes não falava tanto, mas sempre dava um toque ou outro. Mas o Fábio Santos é um cara que abraça mesmo", comentou depois quando questionado sobre a relação com jogadores do profissional.
Agora, Keven segue livre no mercado em busca de recomeçar a carreira no Brasil, totalmente livre para assinar com qualquer clube. Enquanto não assina com nenhum, o meia vem atuando na várzea por um time da região da Mooca.
Em teoria, Keven pode assinar com qualquer clube mesmo após o fim da janela de transferências na próxima terça-feira, dia 2 de setembro. Contudo, o meia admite que um acordo deve vir apenas para 2026.
