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Reforma do Estatuto
SAF em pauta e a necessidade de profissionalização do Corinthians marcam terceira audiência pública
Por Felipe Sales, Fábio Marinho e Gustavo Lima, no Parque São Jorge
O Teatro do Corinthians, no Parque São Jorge, recebeu na noite desta segunda-feira a terceira audiência pública do ciclo de debates sobre a reforma do Estatuto do clube. O encontro teve como tema central a possibilidade e as regras para uma eventual cisão entre o clube social e o departamento de futebol em caso de criação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
Após o pronunciamento inicial de Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo (CD), começaram as manifestações dos participantes. Ao fim das discussões das 11 sessões previstas, a Comissão de Reforma do Estatuto do CD reunirá todos os apontamentos para elaborar uma nova versão do anteprojeto. O texto atualizado será votado pelo Conselho Deliberativo e, posteriormente, submetido a uma Assembleia Geral com participação e voto dos associados.
O debate desta noite se concentrou no Artigo 45, parágrafos 2º e 3º do anteprojeto, que tratam justamente do processo para constituição de uma SAF. O tema ganha peso no cenário esportivo nacional, já que vários clubes brasileiros têm incluído em seus estatutos mecanismos para regulamentar operações societárias relacionadas ao futebol desde a implementação da Lei Geral do Esporte em 2023.
Entre os pontos em discussão, um dos que mais ganharam visibilidade nos últimos meses é a SAFiel, que defende uma ampla reestruturação administrativa e financeira. O projeto prega transparência, gestão profissional e participação dos torcedores sem abrir mão da identidade popular do clube. Ele já foi apresentado à Gaviões da Fiel, ao presidente Osmar Stabile e ao presidente do CD, Romeu Tuma Júnior, junto a uma carta de intenções . Sendo assim, os organizadores receberam uma exceção para apresentarem o projeto na sessão desta segunda-feira.
Outra proposta colocada em pauta é a do grupo União dos Vitalícios, que sugere a possibilidade de constituição de uma sociedade empresária pelo clube — não necessariamente uma SAF — porém, com regras mais rígidas. Pelo modelo, o Corinthians manteria 51% do capital social e o controle político, enquanto a sociedade empresarial administraria exclusivamente o futebol, mediante aprovação de dois terços dos associados. Além disso, os investidores teriam de destinar 10% da receita líquida ao clube social, sob fiscalização do Conselho Deliberativo.
Porém, vale destacar, nenhum membro do grupo União dos Vitalícios foi ao palco para falar sobre o assunto na audiência.
A ideia guarda semelhança com o texto apresentado pela Chapa Salve o Corinthians, que também defende que o clube preserve, de forma obrigatória, 51% do controle societário de qualquer eventual empresa criada para gerir o futebol, assegurando a manutenção da finalidade social e esportiva da instituição.
Vale lembrar que, apesar das solicitações de Romeu Tuma Júnior e de um requerimento do ex-diretor jurídico e conselheiro trienal Vinícius Cascone, a audiência não teve transmissão ao vivo pela Corinthians TV. O equipamento para exibição estava montado — assim como ocorreu nas duas sessões iniciais —, mas a transmissão foi vetada pela diretoria presidida por Osmar Stabile.
Abaixo, o Meu Timão separou todos os detalhes da audiência.
Quem participou?
A audiência contou com aproximadamente 100 participantes, o maior público desde o início dos debates. Mais uma vez, a ausência do presidente Osmar Stabile foi notada, assim como a de Miguel Marques e Silva, presidente do Conselho de Orientação (Cori) — este, porém, tinha a justificativa de que o Cori se reuniu no mesmo horário para discutir a previsão orçamentária do Corinthians para 2026.
Entre os conselheiros mais conhecidos estavam André Negão, Rozallah Santoro, Peterson Ruan, Vinícius Cascone, Paulo Pedro e Miriam Athie. Pela primeira vez desde a audiência inaugural, Armando Mendonça, segundo vice-presidente do Corinthians, também compareceu, embora tenha permanecido na sala por pouco tempo. Marcelo Munhoes, diretor de tecnologia, foi outra figura que esteve no debate.
Por parte da SAFiel, Carlos Teixeira (CEO), Maurício Chamati (diretor de tecnologia) e Eduardo Salusse (diretor jurídico) estiveram presentes na sessão desta segunda-feira.
Também marcaram presença os coletivos Voz Corinthiana, Sustentamos, Paixão Corinthiana, Família Corinthians e Democracia Corinthiana.
Representando a Gaviões da Fiel, estiveram no Teatro do Corinthians o advogado da organizada, Edson Oliveira, e o assessor de imprensa Alex da Matta, além de Metaleiro, ex-presidente da uniformizada. A Fiel Macabra também esteve presente, assim como um grupo de membros do movimento Arquibancada 85.
Pronunciamentos
O presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior, abriu a sessão explicando que o objetivo da audiência não era discutir modelos específicos de SAF nem definir qual poderia ser aplicado ao Corinthians. A proposta inicial era debater a inclusão — ou não — da possibilidade de o clube tornar-se SAF no Estatuto e estabelecer quais seriam as condições para uma eventual transformação no futuro.
Segundo Tuma, uma exceção foi aberta para a SAFiel porque já havia uma reunião previamente agendada com seus idealizadores. Dessa forma, o grupo pôde utilizar o espaço da audiência para apresentar a proposta.
Apesar disso, o modelo da SAFiel foi amplamente criticado por conselheiros, associados e coletivos, sob o argumento de que o investimento proposto seria baixo (R$ 1,6 bilhão) e concentraria poder nas mãos de quem tivesse maior capacidade financeira, retirando do torcedor comum — e até de parte dos associados — o protagonismo na gestão futura do clube.
A audiência desta segunda-feira ocorreu de maneira tranquila, com debates amenos e poucos momentos de tensão, cenário bem diferente das duas primeiras sessões. Durante cerca de quatro horas, diversos participantes subiram ao palco para expor seus posicionamentos sobre a eventual transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol. Além da SAFiel, outros dois projetos foram apresentados: o “Time do Povo”, da Democracia Corinthiana, e a proposta da Família Corinthians.
Felipe Ezabella foi o primeiro a falar, justificando que precisaria se ausentar logo depois para participar da reunião do Cori que debateria as finanças do clube e o plano orçamentário de 2026. Em sua fala, fez apontamentos técnicos e jurídicos sobre ajustes necessários para adequar o anteprojeto à Lei da SAF, evitando a publicação de um documento em desconformidade com a legislação.
Na sequência, Eduardo Salusse e Carlos Teixeira apresentaram a SAFiel em um pronunciamento de cerca de 20 minutos. Salusse ressaltou que não possui interesse político ou financeiro no modelo proposto e afirmou que o projeto pode ser disponibilizado ao Corinthians mesmo sem participação direta da SAFiel. Explicou que a ideia é utilizar a Lei da SAF em uma estrutura na qual o Corinthians manteria 100% dos ativos do futebol, enquanto uma nova empresa faria a captação de recursos no mercado por meio de Fundos de Investimentos em Ações. Um mecanismo, segundo ele, já avaliado por instituições financeiras e escritórios de advocacia de grande porte.
De acordo com a apresentação, essa empresa seria dividida em duas: uma para captação de recursos entre torcedores e sócios — por meio de ações ordinárias com direito a voto — e outra destinada a empresas e organizações, sem direito a voto. A captação estimada varia entre R$ 1,6 bilhão e R$ 2,7 bilhões. Os valores seriam repassados ao clube associativo, permitindo que o Corinthians começasse sem dívidas. O clube também receberia royalties e seria beneficiado pela futura valorização da empresa, além de investimentos em modernização, elenco e infraestrutura.
A SAFiel teria uma governança “de primeira linha”, com critérios claros, participação feminina e mecanismos de proteção ao clube. Outro ponto citado foi o bloqueio de retirada de dividendos por cinco anos — período em que todos os rendimentos seriam destinados exclusivamente ao clube.
Durante o discurso, Salusse buscou reduzir os desgastes entre conselheiros e o grupo, afirmando que o objetivo é “sanar os problemas do Corinthians”. Colocou-se à disposição para formar grupos de trabalho e rebateu críticas que chamou de “desinformações” disseminadas nas redes sociais. Defendeu que os estudos apresentados têm base técnica e descartou qualquer acusação de que a proposta seria “vazia”.
Em seguida, o advogado da Gaviões da Fiel, Edson Oliveira, questionou a possibilidade de encontrar um meio-termo entre a proposta da SAFiel e a manutenção de um controle mínimo de 51% pelo Corinthians. Salusse respondeu que o mercado não investe em estruturas nas quais o clube associativo mantém controle político, pois não há previsibilidade sobre quem comandará a gestão no futuro — e investidores buscam segurança antes de aportar recursos.
Ilmar Schivenatto, conselheiro, questionou a avaliação dos ativos do clube. Carlos Teixeira explicou que os valores foram estimados com base na dívida atual e em estudos que projetam uma valorização de R$ 5 bilhões para o clube social nos próximos cinco anos.
O associado Samir, profissional da área de investimentos, indagou a viabilidade da venda das ações planejadas pela SAFiel e foi aplaudido pela maioria dos presentes. Teixeira respondeu que a captação seguiria regras de mercado e citou estudos mostrando que, mesmo no pior cenário e considerando apenas torcedores, seria possível captar R$ 3 bilhões.
José Luiz, outro conselheiro, sugeriu contratar duas empresas independentes para avaliar o valor real do Corinthians enquanto ativo. Tuma ponderou que, embora existam profissionais qualificados envolvidos nos projetos, isso não garante sucesso — assim como o modelo associativo não é garantia de fracasso nem de estabilidade.
Carlos Teixeira encerrou a apresentação afirmando que todos os números são baseados em estudos e reiterou que a SAFiel não “tira a alma” do Corinthians, mas tenta equilibrar democracia, governança e participação popular. Disse respeitar os associados e afirmou que o grupo “tocou em feridas” do clube para colaborar com a reconstrução. Foi aplaudido.
Paulo Pedro parabenizou a SAFiel pelo pedido de desculpas aos conselheiros, após atritos gerados por publicações do grupo. Em seguida, criticou a cláusula que afastaria o Conselho Deliberativo, transferindo decisões para a Assembleia Geral, e questionou o sistema de potes, que, segundo ele, permite que investidores com maior aporte tenham mais poder que investidores menores.
A conselheira vitalícia Miriam Athie elogiou aspectos da proposta, mas apontou pontos que precisam de ajustes. Defendeu um modelo de SAF sem dono, com os associados mantendo poder decisório, e sugeriu criar uma comissão no Conselho para analisar todas as propostas. Defendeu ainda incluir no Estatuto a possibilidade de o Corinthians se tornar SAF — sem obrigatoriedade de transformação. Foi amplamente aplaudida.
O associado Cyrilo Cavalheiro defendeu que uma eventual conversão do clube em SAF deve passar por Assembleia Geral, e não somente pelo Conselho. Criticou a baixa adesão de lideranças às audiências — ponto reforçado por Tuma — e foi aplaudido ao defender que ex-presidentes sejam afastados de qualquer influência no clube.
O ex-diretor financeiro e conselheiro Rozallah Santoro afirmou que a SAF pode se tornar necessária diante da reforma tributária, que aumentará impostos para clubes associativos a partir de 2027. Declarou ser contrário ao modelo de distribuição de poder proposto pela SAFiel, demonstrou preocupação com o Fair Play Financeiro — que exige quitação de dívidas antigas até outubro de 2026 — e avaliou que uma das alternativas seria a recuperação judicial.
Carlos Teixeira pediu a palavra novamente para reafirmar que o projeto ainda precisa de lapidações e mostrou disposição para ajustar pontos em conjunto com conselheiros.
Fábio Prudente, do Coletivo Voz Corinthiana, reforçou que a audiência não tinha como objetivo decidir se o Corinthians deve virar SAF, mas garantir controle estatutário caso isso ocorra, evitando situações como a do Vasco com a 777 Partners. Pediu união dos conselheiros e ecoou o discurso de Alê, presidente da Gaviões, sobre buscar soluções para o clube.
O conselheiro Peterson Ruan criticou a baixa participação de conselheiros nas sessões, defendeu a entrada do Fiel Torcedor nas decisões do clube e afirmou que a SAFiel representa um novo caminho — embora rejeite a ideia de SAF com dono. Defendeu também a manutenção das modalidades olímpicas, que, segundo ele, podem se tornar autossustentáveis.
Metaleiro, ex-presidente da Gaviões, afirmou que discutir SAF representa “um dia triste” para o Corinthians, clube que arrecada mais de R$ 1 bilhão e, mesmo assim, não resolve seus problemas internos. Criticou a distribuição de cargos para parentes, condenou torcedores que, segundo ele, “só reclamam nas redes sociais”, e argumentou que a profissionalização não é solução mágica, citando escândalos corporativos como exemplo. Disse que este não é o momento para discutir SAF e que “a adversidade sempre fez parte da história do Corinthians”.
Logo depois, Victor Amatucci e Vitor Felizardo, do Coletivo Democracia Corinthiana, apresentaram o modelo “Time do Povo”, inspirado no Green Bay Packers, franquia da NFL, e no Bayern de Munique, da Alemanha. Criticaram a concentração de poder prevista na SAFiel e defenderam um modelo com forte participação da torcida.
Hicham Said Abbas, representante da Família Corinthians, apresentou brevemente seu modelo de SAF, baseado em pilares de profissionalização da gestão, sustentabilidade financeira, transparência, ética e valorização da marca, com o clube mantendo 100% das ações.
Tiquinho, do Movimento Arquibancada 85, defendeu a cisão do futebol em relação ao clube social e afirmou que é preciso responsabilizar quem prejudicou o Corinthians ao longo dos anos. Ele criticou duramente a SAFiel e o que classificou como um baixo valor de investimento previsto pelo grupo.
Eduardo Salusse, representante da SAFiel, respondeu negando qualquer envolvimento da iniciativa nas manifestações ocorridas no jogo contra o Juventude e na porta do Parque São Jorge. Reforçou ainda que não possui qualquer interesse político na proposta apresentada.
Para encerrar, o ex-diretor jurídico e conselheiro Vinícius Cascone usou o seu espaço para sugerir que Romeu Tuma Júnior designe um grupo de trabalho dentro do Conselho para discutir com os Coletivos e SAFiel as propostas de SAF e levar um maiores detalhes até o fim das audiências públicas.
Próximos passos
Todos os demais serão realizados no Teatro do Corinthians, no Parque São Jorge, sede social do clube, sempre a partir das 18h. Os interessados que desejarem se manifestar durante as reuniões e audiências públicas precisam realizar inscrição antecipada pelo e-mail [email protected] , com prazo limite de até três horas antes do início de cada sessão — clique aqui para obter mais informações de como participar.
O cronograma será o seguinte:
Dia 1 (01/12/25) veja como foi :
- Denominação, sede, duração, fins e patrimônio;
- Quadro social;
- Poderes sociais.
Dia 2 (05/12/2025) veja como foi :
- Discussão sobre a votação do Fiel Torcedor.
Dia 3 (08/12/2025):
- Assembleia Geral, convocação, quórum e publicidade para implementação de uma possível SAF.
Dia 4 (17/12/2025):
- Poderes sociais;
- Assembleia Geral, convocação, quórum e publicidade.
Dia 5 (21/01/2026):
- Sistemas de eleição para o Conselho Deliberativo.
Dia 6 (23/01/2026):
- Conselho Deliberativo: composição, funcionamento e deliberação.
Dia 7 (26/01/2026):
- Sistema de votação para a Diretoria;
- Conselheiro vitalício honorário;
- Regras de faltas para conselheiros vitalícios.
Dia 8 (29/01/2026):
- Estrutura do Conselho de Orientação (CORI);
- Estrutura do Conselho Fiscal (CF).
Dia 9 (02/02/2026):
- Diretoria: governança, integridade e responsabilização;
- Finanças: receitas, despesas, limites e controles;
- Regulamentos e regimentos internos.
Dia 10 (04/02/2026):
- Disposições gerais;
- Disposições transitórias e cronograma de implementação.
Extra (09/02/2026):
- Pontos diversos não discutidos nos dias anteriores.
A votação do anteprojeto estava marcada para o último dia 24, mas foi suspensa pelo Conselho Deliberativo .





