Corinthians minha vida, Corinthians minha história, Corinthians meu amor

Maurício Sabará

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Opinião de Maurício Sabará

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Em meu primeiro texto faço questão de explicar a origem do corinthianismo na minha família

Foto: Arquivo pessoal

Meu nome é Maurício Sabará Markiewicz, sou jornalista e, acima de tudo, corinthiano. A partir de hoje escreverei para o site Meu Timão, contando histórias sobre o Sport Club Corinthians Paulista. Mais precisamente citarei velhas-novas histórias, pois percebo que o nosso passado, que é uma bandeira, muitas vezes é desconhecido pela geração nova, acreditando que a glória corinthiana tenha se iniciado agora, com os títulos do formidável treinador Tite, depois que fomos campeões brasileiros pela primeira vez em 1990 ou mesmo a partir do título paulista de 1977. Ledo engano, pois desde nossos primórdios, nos anos 10, alcançávamos conquistas e feitos de dimensões estimáveis.

Em meu primeiro texto faço questão de explicar a origem do corinthianismo na minha família. Citarei mais o meu segundo sobrenome, o Markiewicz, embora o primeiro (Sabará) também tenha um histórico interessante devido a um saudoso tio, que era um daqueles corinthianos de se tirar o chapéu, assunto que deixarei para outra ocasião.

Fritz Markiewicz era o nome do meu avô paterno. Seu nome não escondia que era alemão, embora a origem do sobrenome creia que seja polonesa, pois nasceu em uma cidade chamada Breslau (na época pertencente à Alemanha), mas que historicamente já pertenceu à Áustria e atualmente faz parte da Polônia, com o nome de Wroclaw.

Nascido em 19 de dezembro de 1909, quase um ano antes do surgimento do Corinthians, quando criança teve que conviver com uma realidade chamada Grande Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918. Seu pai, Bruno Markiewicz, morreu em combate no conflito, sendo então criado pelo tio, que era delegado de polícia. Quando o conflito terminou, com a queda da monarquia, por incrível que pareça, iniciou de fato o interesse dos alemães pelo futebol, mesmo existindo no país desde as últimas décadas do século XIX e tendo um campeonato nacional a partir de 1903. Como se tratava de um esporte de origem inglesa, o império não aceitava que se tornasse o número 1, dando prioridade à ginástica.

Claro que o meu avô passou a gostar do futebol, sendo inclusive um veloz ponteiro esquerdo, algo que conciliava com a sua profissão de relojoeiro.

Ele dizia que conhecia o Corinthians desde o tempo que morava na Alemanha. Mas como isso se o time nunca tinha jogado em gramados europeus e a comunicação da época era constituída pelos jornais e por raras transmissões via rádio? Caro leitor, nosso time é conhecido na Europa há mais de 100 anos, algo que futuramente contarei.

No início da década de 30, o mundo ainda em crise por causa do término da guerra e a queda da Bolsa de Nova York, fazendo com que novas ideologias criassem um corpo maior, o que fez com que assumissem o poder no Velho Mundo. Meu avô discordava de tais idéias, levando-o a sair do seu país junto com outras famílias e amigos, tentando uma nova vida no Novo Mundo, mais precisamente no Brasil.

Em setembro de 1934 chega ao porto de Santos, indo depois para São Paulo. Claro que um dos seus interesses, além de conseguir um novo emprego em sua profissão, era ter um time pra torcer, já que na Alemanha torcia pelo Schalke 04.

Muitas vezes quando um estrangeiro chega a um novo país, seu interesse é não perder suas raízes, por tradição mesmo, tendo vontade de conhecer novos costumes, mas temeroso de não se adaptar a culturas tão diferentes. Ele quis fazer parte de um time que tinha o nome de Germânia, mas o atual Pinheiros não praticava mais o futebol, algo que aconteceu a partir de 1933, com o advento do Profissionalismo. Optou por torcer pela equipe do jogador com nome mais alemão do Brasil, o centroavante Arthur Friedenreich, principal jogador do país. Mas os dias do clube estavam terminando, então viu poucas apresentações.

Por residir no bairro da Pompéia, tentou ser sócio do Palestra Itália. Mas a agremiação só aceitava italianos, algo que não o agradou, pois já estava farto de preconceitos.

Foi então que ele se lembrou do Corinthians, que a partir de 1935 voltava a figurar como um dos fortes do futebol. Seus novos amigos o convidaram para assistir um jogo contra o Santos, que seria pela primeira vez campeão paulista em pleno Parque São Jorge, com uma vitória por 2 a 0. Mas mesmo com a derrota, uma nova paixão despertava no coração do alemão. Percebeu que tinha se tornado corinthiano, tornando-se, em seguida, sócio do clube.

Nos anos seguintes o time viveu um dos seus principais períodos, sendo tricampeão paulista em 1937/38/39 e retomando a conquista no ano de 1941. Meu avô citava com saudades de nomes como os de Teleco, Servílio, Jango, Brandão, Munhoz, Dino, Lopes e Mário Milani. Eram os seus ídolos. E também do zagueiro Domingos da Guia, o Divino Mestre, que não foi campeão estadual na década de 40, mas que deixou imorredouras lembranças.

Meu pai, Mário Bruno Markiewicz, nasceu em São Paulo no dia 05 de outubro de 1940. Seu irmão, Cláudio Markiewicz, é do dia 31 de outubro de 1944. Segundo o meu avô, deu o nome em homenagem à contratação do ponteiro direito Cláudio Christóvam de Pinho, provando que ele veio ao clube em 1944, conforme consta em uma revista corinthiana de 1971.

Desde a segunda metade da década de 40, meu avô fez questão de levar o primeiro filho ao Pacaembu, um estádio que foi inaugurado em 1940, ano do seu nascimento. Seu primeiro jogo, com 5 anos de idade, foi contra o SPR (atual Nacional da Comendador de Souza), tendo recordação de ter visto em campo nomes como os de Domingos da Guia e Servílio, dizendo que se assustava quando o Corinthians anotava gols, pelo barulho que a torcida fazia, pois achava que cairia da arquibancada.

Mas sua paixão pelo time corinthiano começou pra valer nos anos 50. Não tinha como não torcer com fervor para aquela equipe, muito vitoriosa, fortíssima em clássicos, várias vezes campeã e tendo nomes que soam fortes até hoje para o ouvido dos torcedores corinthianos. Admirou muito jogadores como o Cláudio, os goleiros Gilmar e Cabeção, Roberto Belangero, Idário, Olavo, Baltazar, Carbone, Rafael Chiarella, Mário e especialmente o Luizinho, maior ídolo daquela inesquecível geração. Também sempre lembrou com saudosismo do presidente Alfredo Ignácio Trindade e dos treinadores José Castelli (Rato) e Oswaldo Brandão. Os feitos daquele esquadrão eram construídos com muita categoria pelos seus craques, mas sem nunca faltar a tradicional fibra corinthiana, o que fazia do elenco estar eternamente nos corações de seus torcedores.

A forma de o meu pai torcer sempre foi inflamante, sendo muito conhecido pelos torcedores daquele tempo, me contando histórias curiosas. Uma que me marcou muito foi quando estava em um jogo no Pacaembu, em 1958, sendo que um velho torcedor, ao ver a sua forma de incentivar a equipe, se aproximou dele e o convidou pra fazer parte da TUC (Torcida Uniformizada do Corinthians). O nome dele era Francisco Picciochi, o velho Tan-Tan.

Desde 1951 é sócio do clube, tornando-se remido a partir de 1961, por ter contribuído com dinheiro para a construção dos refletores da Fazendinha, na primeira gestão de Vicente Matheus.

Na década de 60, diferente da de 50, não foi tão feliz, com o time não obtendo os mesmos resultados em campo, mas nem por isso fazendo com que seu corinthianismo mudasse. Pelo menos nas quadras de basquete, outra paixão sua, a situação era outra, com as grandes apresentações de Wlamir Marques, Amaury, Rosa Branca e Ubiratan.

Mesmo tendo Rivellino como um novo ídolo, jamais ocuparia o espaço deixado pelo inesquecível Luizinho. Apesar de admirar muito o Riva, de certa forma foi um dos muitos que se decepcionou pela falta de títulos importantes, principalmente depois da perda do Paulistão de 1974.

Mas mesmo sofrendo com tanta espera, esteve presente em momentos marcantes, como na invasão do Maracanã e no segundo jogo decisivo do título paulista de 1977, quando o Morumbi teve um público recorde de mais de 150 mil torcedores.

Nasci em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976. Foi um ano importante, pois em 05 de dezembro ocorreu a já mencionada invasão, contra o Fluminense.

Obviamente que não tenho lembranças vivas da conquista corinthiana após 22 anos de jejum, mas sei que depois da partida meus pais me levaram dentro do velho fusquinha pra comemorar pelas ruas do Bairro do Limão e Marginal Tietê, com a bandeira corinthiana na antena e eu com um gorrinho do time.

Minhas primeiras recordações como torcedor são de fevereiro de 1980, vendo o meu pai comemorando o título paulista do ano anterior.

A partir de 1981 comecei a freqüentar o Parque São Jorge, tendo a oportunidade de conhecer o velho artilheiro Teleco, que era quem tomava conta da sala de troféus e anos depois me contaria grandes histórias suas e do Corinthians.

Para um menino que começa a acompanhar futebol, geralmente é necessário algo chamativo para que comece a se interessar pelo esporte. Comigo não foi diferente, pois em 1982 assisti a Copa do Mundo da Espanha, me encantando com o jogo apresentado dos brasileiros e também por ter um representante corinthiano, o Doutor Sócrates, meu primeiro ídolo. A derrota brasileira fez com que eu entendesse desde pequeno que nem sempre se pode ganhar na vida.

Depois minhas atenções ficaram voltadas para o Campeonato Paulista. Não serei hipócrita em dizer que na época entendia sobre a Democracia Corinthiana, pois para um menino de 6 anos o mais importante era ver o seu time ganhando. E o título daquele ano, da forma como foi conquistado, obviamente que me despertou pra valer a paixão de torcedor.

Faltava agora a estréia em um estádio. E ela ocorreu de forma brilhante, no Canindé, em 1983, com uma inesquecível goleada contra o Tiradentes do Piauí, por 10 a 1, a maior até hoje do Campeonato Brasileiro, além de estar vendo em campo jogadores como Sócrates, Zenon e Biro-BIro, vibrando com o golaço de bicicleta assinalado por Wladimir e sem jamais esquecer que o primeiro gol que vi foi feito por um jogador que era conhecido pelo apelido de Sabará.

No mesmo ano assisti no Parque Antárctica (nunca mais vi um jogo lá) uma derrota para o Taubaté por 2 a 1 pelo Estadual, sendo o gol de honra marcado por Casagrande após um cruzamento do veterano Zé Maria. Quando eu comentava no colegial que tinha visto o Super Zé jogar em campo, os colegas me chamavam de velho.

Muitos outros jogos e decisões marcaram a minha vida. Costumava dizer que tinha visto jogar Cláudio e Luizinho em campo. Tal menção fazia sentido, pois vi o primeiro em ação na primeira partida do Corinthians contra o Corinthian Casuals em 1988, enquanto que o Pequeno Polegar estive presente quando ele foi homenageado na estréia do Edmundo com a camisa corinthiana, no ano de 1996.

Explicar o que o Corinthians significa na minha vida e do meu pai e o que significou para o meu avô, é algo difícil. Não existe meio corinthiano ou mais corinthiano. Muitas vezes certas atitudes fazem de si um torcedor, sem mesmo estar tão presente nos estádios. Posso até dizer se tratar de algo patológico. Podemos afirmar que somos doentiamente corinthianos. Mas garanto que se trata de uma doença bem gostosa de ter.

Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Por Maurício Sabará Markiewicz

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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