[Maurício Sabará] Sim, sempre tivemos passaporte

Maurício Sabará

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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Sim, sempre tivemos passaporte

Sim, sempre tivemos passaporte

Embarque para a primeira apresentação do Corinthians na Europa em 1952

Foto: Arquivo

Mais uma vez esclarecerei outra inverdade relacionada ao Corinthians, da qual era dita por desconhecimento e também pela mania dos rivais em tentar rotular um time que não gostam, tentando rebaixá-lo da forma que mais podiam. Dizer que nunca tivemos passaporte internacional é uma das maiores heresias do futebol, ainda mais para um time que desde os seus primeiros anos era um orgulho em seus confrontos contra equipes estrangeiras, algo que continuou mantendo a partir do momento que começou a participar de excursões para fora do Brasil. Um melhor argumento, até 2012, seria “não ter a Libertadores da América”.

Em agosto de 1914, antes mesmo de o Corinthians conquistar o seu primeiro Campeonato Paulista, já realizava sua primeira partida contra um time estrangeiro. O Torino foi o primeiro conjunto italiano que visitou o Brasil, algo que era sempre recebido com entusiasmo pelos torcedores e imprensa da época, pois a Europa era o berço do esporte, então se acreditava que os melhores jogadores do mundo estavam lá. A esquadra de Turim faz ótimas apresentações por aqui, mas foi justamente contra um jovem time do Bairro do Bom Retiro que encontrou as maiores dificuldades. Mesmo vencendo os corinthianos por 3 a 0 em 15 de agosto, reconheceu ter enfrentado um valoroso adversário. Sete dias depois aconteceu a revanche, vencendo apenas pelo placar de 2 a 1, sendo que no segundo gol a bola bateu na trave e não entrou. O técnico italiano Vittorio Pozzo, que seria o único treinador a ser bicampeão em Copas do Mundo (1934 e 1938), fez rasgados elogios à equipe corinthiana, afirmando que teria condições de ir ao continente europeu e enfrentar sem receio algum os melhores quadros existentes lá, inclusive tendo interesse em custear tal excursão, que não aconteceu por causa da Grande Guerra Mundial que começava naquele ano. Se tivesse dado certo, o Corinthians teria sido o primeiro time brasileiro a ir ao Velho Mundo, tendo apenas 4 anos de existência. Tal pioneirismo coube ao aristocrático Clube Atlético Paulistano, em 1925.

Há 100 anos não era fácil para uma equipe estrangeira se deslocar para um país distante, devido aos conflitos militares, viagens de navios e também por outras crises econômicas que abalaram o mundo nos Anos 20. Então o Corinthians só voltaria a enfrentar um time estrangeiro em 01/05/1928, sofrendo uma derrota por 2 a 1 para o Peñarol do Uruguai. Mas pouco depois faria seu primeiro jogo na Fazendinha, iniciando uma das fases mais gloriosas da sua história.

O time corinthiano tricampeão paulista em 1928/29/30 é considerado um dos melhores que se montou no Parque São Jorge. Inclusive ficou conhecido por um apelido justamente devido a um grande triunfo internacional, provando que seus feitos não eram apenas caseiros.

Em 1929 e 1930 o poderoso elenco ficou invicto em todos os jogos que disputou, sendo três em cada ano. Quando obteve sua primeira vitória internacional, derrotando o Barracas Argentino por 3 a 1, o jornalista Thomaz Mazzoni, do Jornal A Gazeta, ficou tão impressionado com a fibra dos nossos jogadores, que os chamou em sua coluna de Os Mosqueteiros, em alusão à clássica obra de Alexandre Dumas, por sinal uma das minhas preferidas. Surgia assim, em 01/05/1929, o quadro que ficou conhecido como Esquadrão Mosqueteiro.

Ainda em 1929 empata por 4 a 4 com o Chelsea, o mesmo que enfrentaríamos em 2012 na decisão do nosso Bicampeonato Mundial. E em 30 de julho goleia o Bologna da Itália pelo placar de 6 a 1, imagens essas que são possíveis de ver no filme dos 100 Anos e também no Youtube, as mais antigas que se tem disponíveis de um jogo do Corinthians.

E em 02/02/1930 mais uma espetacular vitória, goleando o Tucumán da Argentina pelo placar de 7 a 2, consolidando no mês de julho sua força em tais confrontos, ganhando do Hakoah dos Estados Unidos (equipe formada por jogadores judeus) por 5 a 1 e enfiando 4 a 2 no Huracán Argentino.

Os valorosos resultados fizeram com que o Corinthians se tornasse uma vitrine para o cenário futebolístico europeu, tanto é que foi o time que mais perdeu jogadores na primeira leva de brasileiros para o exterior, mais precisamente para o futebol italiano. Em julho de 1931 a Lazio de Roma levou para compor o seu elenco o defensor Del Debbio e os atacantes Filó, Rato e De Maria. Com tais desfalques e o advento do Profissionalismo no Brasil, o clube passou pela primeira grande crise da sua história, que duraria por mais de três anos.

Somente em 1935 é que o Corinthians voltaria a enfrentar um time estrangeiro. Era sua estréia contra o Boca Juniors, no dia 10 de fevereiro, já considerado um dos grandes clubes argentinos. E com uma sensacional vitória por 2 a 0, no Parque São Jorge, fez com que o adversário se retirasse do gramado, temendo sofrer uma derrota ainda maior. E sete dias depois também estreava em seus domínios contra o River Plate, mas sendo derrotado pelo placar de 3 a 1.

Durante 10 anos, entre 1936 e 1946, o Corinthians manteve boas apresentações contra equipes estrangeiras que excursionavam pelo Brasil. Boa parte dos resultados era por empate, ganhando um jogo e também perdendo apenas uma partida. O grande momento da década de 40 ficaria reservado para 1948.

River Plate e Torino foram, sem sombra de dúvida, os dois melhores times do mundo nos Anos 40. O River era conhecido pelo apelido de La Maquina. E o esquadrão de Turim é considerado até hoje o mais espetacular time italiano de todos os tempos. Mas apenas um quadro brasileiro conseguiu derrotá-los, que foi justamente o Corinthians, ambos sendo vencidos no Pacaembu pelo placar de 2 a 1. Pouco depois, em 1949, houve uma greve no futebol argentino, fazendo com que seus jogadores saíssem do país, com boa parte deles indo para a Liga Pirata da Colômbia. E no mesmo ano um trágico acidente de avião dizimou toda a equipe italiana, com os jogadores corinthianos fazendo uma bela homenagem no dia 08 de maio, usando camisas grenás na vitória por 2 a 0 contra a Portuguesa de Desportos.

No mesmo ano de 1949, mais dois empates contra equipes européias no Estádio do Pacaembu. Em 16 de junho, por 2 a 2, com o Rapid de Viena, sendo os austríacos conhecidos pelo belo futebol que sempre praticaram, que já vinha desde os Anos 30, com o seu Wunderteam (Time Maravilha). E no dia 01 de dezembro um fantástico placar de 4 a 4 em uma partida noturna contra o Malmoe da Suécia, com os suecos sendo um dos melhores da Europa na época, campeões olímpicos de 1948.

Mas o melhor estava pra vir nos inesquecíveis Anos 50.

Antes sempre gosto de citar que a primeira delegação corinthiana que excursionou para fora do Brasil não foi a de futebol, mas sim a de basquete, em 1948. Mas com certeza o tema bola ao cesto será explicado com mais precisão em uma próxima matéria.

A estréia corinthiana em gramados internacionais aconteceu em 30/06/1951. E não foi um jogo qualquer, pois enfrentou um Combinado Uruguaio em plena Montevidéu, no Estádio Centenário. O Corinthians foi o primeiro time brasileiro que jogaria contra os uruguaios, que na Copa do Mundo de 1950 seriam campeões do mundo em pleno Maracanã contra a Seleção Brasileira. Mas claro que os jogadores corinthianos tinham tal consciência e queriam vingar essa triste derrota, aplicando uma histórica goleada por 4 a 1. Para se ter uma idéia que não foi um resultado qualquer, estava presentes no quadro deles alguns jogadores campeões mundiais, como o médio Rodríguez Andrade e os zagueiros Mathias Gonzalez e Hector Vilches.

Entre abril e junho de 1952 o Corinthians faria suas primeiras apresentações no continente europeu, se apresentando na Turquia, Dinamarca, Finlândia e Suécia. Perdeu apenas o primeiro jogo para o Besiktas, por 1 a 0. Depois se manteve invicto contra todos os times que enfrentou, com grandes resultados com os turcos, inaugurou o Estádio Olímpico de Helsink (capital finalndesa), empatou em 1 a 1 contra um Combinado de Copenhagen tendo um árbitro apitando para os dinamarqueses mas com o goleiro Gilmar defendendo duas penalidades e impôs excelentes vitórias contra times suecos, inclusive com inesquecíveis goleadas, como em seu jogo de despedida (10 a 1 em cima do Halmstad). A imprensa sueca não se conteve com o que viu, dizendo que o time corinthiano não era um quadro de futebol, mas sim um conjunto de artistas. No Youtube é possível ver dois jogos do Corinthians na Suécia. E voltamos da Europa sendo homenageados com a Fita Azul, título esse dado às equipes brasileiras que ficavam mais de 10 jogos invictos no exterior.

A força corinthiana se fez presente na Copa Rio, torneio contra times estrangeiros do qual participavam os campeões estaduais de São Paulo e do Rio de Janeiro da temporada anterior.

O Corinthians foi muito bem na competição, derrotando todas as equipes de fora, metendo 6 gols no Saarbrucken Alemão e no Libertad do Paraguai, depois vencendo por 2 a 1 de virada um time chamado Áustria. Na partida contra o Peñarol também vence pelo mesmo placar que derrotou os austríacos, dois gols do ponteiro direito Cláudio, com os uruguaios contando com os famosos Obdulio Varela, Ghiggia e Schiaffino, resolvem apelar para a violência, quebrando importantes jogadores como o Baltazar, Murilo (esse nunca mais seria o mesmo zagueiro clássico), Goiano e Roberto Belangero. Com tais desfalques vai ao Maracanã para a decisão com o Fluminense, perdendo o primeiro o jogo e empatando o segundo, com muitos dizendo que se estivesse completo talvez o resultado fosse.

Mesmo não sendo campeão paulista em 1953, foi uma dos melhores anos do Corinthians. No âmbito internacional participa da Taça Rivadávia Correia Meyer, goleando o Olympia do Paraguai por 5 a 2 (imagens também disponíveis no Youtube). Mas o melhor ocorre entre os meses de julho e agosto, quando participa do Torneio de Caracas ou Pequena Copa do Mundo.

A imprensa sueca não se conteve com o que viu, dizendo que o time corinthiano não era um quadro de futebol, mas sim um conjunto de artistas.

Não foi como favorito, com os organizadores da competição achando (e querendo) que o campeão fosse um time europeu. A equipe corinthiana venceu todos os adversários, o time local, a Roma e o Barcelona de Ladislau Kubala. Um segundo turno e, para surpresa geral, todas as partidas novamente vencidas. Volta consagrado ao Brasil.

Realiza em 1954 sua primeira excursão à América Central. Como de costume para aquele fabuloso Corinthians dos Anos 50, é um adversário duro de vencer. E é justamente em um jogo contra o Millionarios da Colômbia, sendo derrotado apenas por 1 a 0, que cai a maior invencibilidade de um time brasileiro contra equipes estrangeiras. Nem mesmo o tão citado Santos de Pelé conseguiu ficar invicto tantas partidas seguidas. Foram 32 jogos desde aquela derrota contra o Besiktas, sendo 25 fora do Brasil. Um triunfo que a mídia por desconhecimento ou em querer tentar ignorar pouco divulga.

O Corinthians foi o time que mais venceu o Torneio Charles Miller, em três ocasiões. Na versão internacional de 1955 obteve uma inesquecível vitória por 2 a 1 contra o Benfica de Portugal. O que ficou mesmo marcado foi o gol da vitória, anotado de falta por Cláudio Christóvam de Pinho, com a bola ganhando um efeito extraordinário, uma autêntica Folha Seca antes mesmo de Didi começar a cobrar, com o goleiro português Costa Pereira, que disputaria a Copa do Mundo de 1966, dizendo com admiração que viu a pelota descrevendo uma curvita.

A força corinthiana contra equipes estrangeiras ainda se fazia presente em 1956. O título da Copa do Atlântico, uma espécie de pré-Libertadores, foi o seu maior triunfo do ano. Um detalhe interessante que deve ser ressaltado é que desde 1948 já se tinha interesse em realizar o hoje consagrado torneio sul-americano, não acontecendo devido aos problemas já citados do futebol argentino e os 10 anos sem confronto entre a Seleção Brasileira e Argentina por causa de uma briga campal que ocorreu em Buenos Aires, no ano de 1946. Pergunto a você, leitor, depois dos exemplos dados, se o Corinthians teria ou não condições de ser campeão do torneio desde os Anos 50?

Ocorre em 1959 a segunda excursão à Europa. O Corinthians, por causa de 1952, era bem mais conhecido que o Santos, que no mesmo período fazia suas primeiras apresentações no Velho Mundo. E mais uma vez o time corinthiano, mesmo sem o mesmo brilho de 7 anos antes, faz bonito, obtendo ótimos resultados, pois ganha do Bayern em seus domínios e obtém uma espetacular vitória contra o fortíssimo Barcelona, no Camp Nou, vencendo-o por 5 a 3.

Muitos não sabem que nos terríveis Anos 60 o Corinthians se sai bem em confrontos internacionais, realizando inclusive em 1963 uma produtiva excursão pela América do Sul e Central, chegando a golear a Seleção do Panamá por 7 a 0. Em 16/11/1965 representa a camisa da Seleção Brasileira e mesmo sendo derrotado por 2 a 0 pelo Arsenal em Londres, é elogiado pela imprensa inglesa, ainda mais pelas dificuldades climáticas que enfrentou, saindo do Brasil em uma temperatura alta e tendo depois que jogar abaixo de 0 graus. Vence também na década de 60 a Copa Cidade de Turim (1966) e em 1969 conquista o Torneio Costa Del Sol e o Troféu Apolo V.

E já em 1975 conquista uma versão internacional de uma Copa São Paulo profissional. Na década de 80 o time pensava grande internacionalmente, sendo que venceu alguns títulos, como o Torneio Feira de Hidalgo (1981), Copa das Nações (1985) e é bicampeão da Taça de Verão da Cidade de Santos em 1986/87. No início de 1984 faz suas primeiras apresentações pelo Japão, pois visava disputar a Copa Toyota. E em 1996, já nos Anos 90, conquista pela primeira vez o Ramón de Carranza. A Libertadores e o Mundial serão citados em outras matérias.

Pergunto agora a você, caro leitor, se depois de tudo que foi dito, se o Corinthians nunca teve passaporte internacional antes de conquistar a Libertadores da América?

Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Por Maurício Sabará Markiewicz

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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