Os reis da bola parada

Maurício Sabará

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

ver detalhes

Os Reis da Bola Parada

Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Opinião de Maurício Sabará

3.7 mil visualizações 79 comentários Comunicar erro

Os Reis da Bola Parada

Jadson é um dos Reis da Bola Parada da história do Corinthians

Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

Um dos momentos mais importantes numa partida de futebol é quando ocorre uma cobrança de falta próxima da área adversária. E dependendo de quem irá cobrá-la, muitas vezes é considerada como meio-gol.

O Sport Club Corinthians Paulista é um dos times que sempre teve tradição em grandes cobradores de faltas. Foram muitos, sendo que cada um tinha um estilo peculiar ao bater na bola.

Em seus primeiros 15 anos, o Corinthians não tinha um cobrador específico. Geralmente os encarregados eram justamente Amílcar e Neco, os principais jogadores corinthianos daquele tempo, responsáveis também pelas cobranças de pênaltis. Fizeram parte dos cinco primeiros títulos paulistas do clube (1914, 1916 e 1922/23/24), mas Amílcar apenas não participou do quinto.

Pedro Grané, contratado junto ao Ypiranga em 1924, foi o primeiro grande cobrador de faltas da história corinthiana. Ele já fazia parte da equipe em seu primeiro Tricampeonato, mas foi justamente no segundo (1928/29/30) que o seu chute virou sinônimo de perigo para os goleiros adversários. Atuava como lateral-direito e zagueiro, formando um histórico trio final, sempre escalado como Tuffy, Grané e Del Debbio, a muralha alvinegra. Mesmo sendo muito forte fisicamente, tinha um estilo limpo de marcar o adversário, sendo que o seu companheiro de defesa marcava de forma mais dura. Mas Grané se destacou de fato pela potência com que chutava a bola, tanto é que lhe rendeu o apelido de 420, que era o calibre de um canhão alemão da Primeira Guerra Mundial. Quando se preparava para cobrar faltas e penalidades, os arqueiros dos outros times tremiam, pois sabiam que teriam que tentar defender um petardo desferido pelo gigante defensor.

Também atuava no time mosqueteiro um ponta-esquerda conhecido como Alexandre De Maria, dono de um fortíssimo chute, mas todos sabiam que no momento da bola parada, era Grané o responsável pela cobrança. Numa partida a serviço da Seleção Brasileira, enfrentando o time do Barracas, seus dois gols ganharam o respeito dos adversários argentinos. Certa vez, defendendo o selecionado paulista, foi caçoado pelo goleiro carioca Jaguaré quando iria bater um pênalti, duvidando da sua fama, mas acabou no hospital, pois ousou defender a cobrança tentando espalmar a bola com um soco. Devido a essa precisão, até hoje é o zagueiro que mais gols marcou na história do clube do Parque São Jorge.

Na década de 30, Hércules de Miranda foi o principal cobrador de faltas do futebol brasileiro. Seu estilo de cobrança era considerado completo, porque batia com ambas as pernas, tanto com força, como com precisão. Entrou para a história com o justo apelido de Dinamitador. Fez parte da grande Seleção Brasileira que ficou em terceiro lugar na Copa do Mundo de 1938. Em 1942 é contratado pelo Corinthians, vivendo uma grande fase da sua carreira, mesmo não sendo campeão paulista, sempre disputando a artilharia da competição com o seu companheiro Mário Milani, fazendo inesquecíveis gols no Estádio do Pacaembu, o maior do futebol brasileiro quando atuou no Coringão.

Quando o Corinthians contratou o ponta-direita Cláudio Christovam de Pinho no final de 1944, Hércules ainda jogava na equipe, pois encerraria a carreira no ano seguinte. Mesmo os dois atuando juntos em apenas quatro partidas, acabaram sendo o suficiente para que Cláudio se tornasse um mestre das bolas paradas. Ele ficou impressionado pela forma com que o velho ponta-esquerda batia na pelota e quis saber como ele conseguia pôr tanto efeito assim. Como bom aluno, aprendeu rápido a lição e tornou-se um especialista. Atuava junto com craques como Milani e Servílio, mas foi somente no final de 1949, quando Luizinho, que vinha das equipes de base, passando a atuar ao seu lado, é que a sua arte foi completada de fato. Ambos eram baixinhos e hábeis, armando o time com desconcertantes tabelinhas. Quando chegava à linha de fundo, executava um perfeito cruzamento para que Baltazar completasse de cabeça após saltar com grande impulsão. Os três formaram um vitorioso trio da história corinthiana.

Era muito técnico com a bola nos pés e desferia chutes precisos à meta adversária, com a bola em movimento. Muito eficiente nas cobranças de escanteio, não raras vezes marcava gols olímpicos. Também costumava ir ao meio de campo para efetuar grandes lançamentos, provando ser um jogador completo na armação das jogadas. Muitos cobradores de falta não gostam de bater pênaltis, mas no caso dele era o contrário, pois também era o encarregado e cobrava com precisão impressionante. Durante dez anos (1947 a 1957) foi o melhor batedor de faltas do futebol brasileiro. Por seu estilo de liderança, passou a ser conhecido pelo apelido de Gerente. Sua cobrança de falta mais famosa aconteceu na final do Torneio Internacional Charles Miller de 1955, quando o Corinthians venceu por 2 a 1 a equipe portuguesa do Benfica, sendo que marcou o primeiro gol de pênalti e no segundo a bola ganhou tanto efeito que o goleiro Costa Pereira, que jogou na Copa do Mundo de 1966, disse que a trajetória da pelota descreveu uma curvita. A única artilharia que conquistou foi no Campeonato Paulista de 1953, mas como artilheiro do Corinthians e não do Paulistão. Mesmo não sendo o principal goleador do time, como Baltazar e Carbone, é o jogador que mais gols marcou na história do Corinthians (306), feito esse devido ao número elevado de partidas e por ser sempre ele o responsável das cobranças de faltas e pênaltis. Ganhou no Parque São Jorge muitos títulos de expressão, como os Paulistões de 1951/52 e 1954, Rio-São Paulo de 1950 e 1953/54 e o Torneio de Caracas (Pequena Taça do Mundo) de 1953. A grande frustração da sua carreira foi não ter sido convocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950, quando era apontado como o melhor ponta-direita do Brasil.

Nas enciclopédias mundiais, o nome de Roberto Rivellino sempre figura como um dos grandes do futebol. Revelado nas categorias de base do Corinthians, honrando essa tradição, chegou à equipe titular como uma esperança, já que em 1965 o time completava dez anos sem vencer o badalado Campeonato Paulista. Foi agraciado pelo apelido de Reizinho do Parque, pois, como Pelé, era considerado um jogador completo, já que lançava muito bem e tinha um drible irresistível conhecido como elástico (herança do japonês Sérgio Etigo). Mas o seu forte mesmo era o potente chute, que lhe rendeu o apelido de Patada Atômica na Copa do Mundo de 1970, a do Tricampeonato Mundial. Rivellino cobrava falta muito bem, tornado-se um dos mais famosos na história corinthiana. Pelo seu estilo diferenciado, praticamente era o jogador mais cobrado do time durante os dez anos, uma pressão que afetava o seu temperamento intempestivo. Muitos jogadores passavam, mas apenas Riva sobrevivia. Inicialmente tinha um rosto de menino, mas quando passou a utilizar o bigode, deixou mais ainda a impressão de um craque cerebral. No seu primeiro campeonato, o Pentagonal de Recife (1965), já foi campeão, ganhando no ano seguinte o Torneio Rio-São Paulo, dividido com Santos, Botafogo e Vasco, deixando a impressão que seria um jogador vitorioso no Parque São Jorge. Mesmo com grandes exibições, estando presente em 1968 na vitória de 2 a 0 contra o Santos na quebra do tabu e fazer parte do time que quase ganhou o Paulistão no ano seguinte, o tão esperado título de expressão não acontecia. Ganhou o Torneio do Povo em 1971 e no mesmo ano estava presente nos históricos 4 a 3 contra o Palmeiras. Em nada saciava a Fiel Torcida, que ficava cada ano mais exigente, conforme a fila ia aumentando. Esteve presente no Mundial da Alemanha de 1974 e no mesmo ano surgiu a maior chance de vencer enfim o Paulistão. O time foi bem no campeonato, mas teve que enfrentar o Palmeiras na final, que tinha uma equipe madura e acostumada a ser campeã. A derrota por 1 a 0 marcou todo o elenco, em especial o Camisa 10 corintiano, acusado como grande responsável pelo fracasso. Não havia mais clima no Parque São Jorge, então ele foi vendido para o Fluminense. Sem dúvida foi um dos maiores craques e cobradores de falta história do Corinthians, mas essa falta de um título de expressão acabou sendo uma das grandes injustiças na sua bela carreira, pelo craque que foi.

No início da década de 80, o Doutor Sócrates era o grande ídolo corinthiano. Único jogador do time que era convocado para a Seleção Brasileira, tinha sido o principal responsável pelo título do Campeonato Paulista de 1979, era o rei do toque de calcanhar e acabou tornando-se o líder do movimento da Democracia Corinthiana pela sua inteligência e posicionamentos políticos. Sócrates também batia muito bem pênaltis e tinha um chute forte nas cobranças de faltas.

Em 1981, o presidente Vicente Matheus resolveu contratar um especialista em bolas paradas, o meia-esquerda Zenon de Souza Farias, um velho sonho de consumo do clube. Apesar de não ser um dos líderes do time no Bicampeonato Paulista de 1982/83, era peça fundamental na equipe e também um jogador muito inteligente, caindo como luva nas idéias do grupo. Tinha uma precisão impressionante nas cobranças de falta próximas da área adversária, pondo muito efeito na bola, com o pé esquerdo e direito. Ao perder o Tricampeonato em 1984 e sem a presença de Sócrates, o time foi decaindo. Mesmo Zenon sendo o melhor jogador da equipe, a força do elenco já não era a mesma, ainda mais com o fracasso de 1985, a Seleção de Papel, pois só tinha jogador de nome em cada posição e que haviam atuado pela seleção de seu país.

Corinthians e Palmeiras, eternos rivais, protagonizaram um dos mais hilários negócios do futebol brasileiro. O clube do Parque São Jorge trocava o inexpressivo Ribamar por José Ferreira Neto, numa das mais positivas trocas da sua história. Ao trocar de Parque em 1989, iniciava o melhor momento da sua carreira. Dono da histórica Camisa 10, que teve craques como Rivellino e Zenon, Neto se destacou num time mais conhecido pela aplicação do que propriamente pelo talento. O meia-esquerda destacou-se muito nas cobranças de faltas venenosas, em qualquer distância, com a sua mortífera perna esquerda, unindo efeito e força, ao estilo de Jair Rosa Pinto. Sua não convocação para a Copa do Mundo de 1990 é até hoje considerada com uma das grandes injustiças do futebol. Na inédita conquista do Campeonato Brasileiro no mesmo ano, foi o principal destaque do time, com decisivas vitórias através da sua precisão nas bolas paradas. No ano seguinte marcou um gol de falta considerado como mais importante da sua carreira e uma das mais perfeitas cobranças da história do futebol, marcando um golaço quase do meio de campo no gigantesco Estádio do Maracanã, em cima do goleiro Gilmar Rinaldi, do Flamengo. Era o seu auge, constantemente convocado à Seleção Brasileira pelo treinador Paulo Roberto Falcão. Mas no mesmo ano aconteceu a polêmica cusparada no juiz José Aparecido de Oliveira, sendo suspenso do futebol. Ao retornar em 1992, teve raros momentos de destaque. Após o Campeonato Paulista de 1993, foi vendido ao futebol colombiano. Retornou ao Corinthians em 1996, conquistando o Paulistão no ano seguinte, título do qual nunca havia vencido, mas longe de repetir as mesmas atuações da sua primeira passagem. Neto geralmente está nas enquetes de melhores cobradores de falta do futebol brasileiro, também lançava bem, tinha muita precisão nas cobranças de escanteio (marcava gols olímpicos), mas poderia ter ido mais longe na carreira se não tivesse que brigar com a balança e pelo gênio explosivo, dois fatores que sempre o acompanharam.

Marcelinho Carioca foi um dos maiores ídolos da história corinthiana. Seu gol mais importante pelo Corinthians foi marcado na Vila Belmiro contra o Santos, em 1996, dando um chapéu de calcanhar no marcador santista, chutando em seguida, sem defesa para Edinho, ganhando depois uma placa do pai do goleiro, ninguém menos que Pelé, que estava presente no estádio. Mas claro que foi nas cobranças de falta que se destacou de fato. Quando chegou ao Sport Club Corinthians Paulista no final de 1993, declarou que pretendia fazer história no clube. E cumpriu a promessa. Logo em seu primeiro ano, foi mostrando o talento que tinha, tendo características de ponta-direita, muito veloz, cruzando com precisão da linha de fundo e nos chutes à distância. Chegou a ser cogitado logo em seu primeiro meio ano no Parque São Jorge a defender a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1994, a do Tetra. Mesmo neste ano ganhando apenas um título sem muita expressão, que foi a Copa Bandeirantes, a torcida corinthiana já o tinha como grande ídolo, acreditando em um grande futuro. No ano seguinte veio a Copa do Brasil, quando foi decisivo nas finais contra o Grêmio, marcando numa perfeita cobrança de falta no primeiro jogo e no segundo anotou o gol da vitória em pleno Estádio Olímpico. No Paulistão daquele ano, liderou o time a conquistar um título que não vinha desde 1988, tendo atuações inesquecíveis, principalmente contra o rival Palmeiras, marcando um golaço de falta quase do meio de campo no primeiro turno e outro próxima da área no jogo decisivo, sem chances para o goleiro Veloso. Com todas essas marcantes características, os mais antigos comparam-no a Cláudio Christóvam de Pinho, pelo estilo de bater faltas, nos cruzamentos, nas cobranças de escanteios e por também usar a camisa 7, mas tinham gênios bem diferentes, pois o Gerente, apesar de liderança, era calmo, enquanto que o Pé de Anjo sempre teve um temperamento explosivo. Muito controvertido quando se preparava para cobrar as faltas, pois costumava, segundo ele, conversar com Deus antes de efetuar a cobrança. Mesmo passando por momentos irregulares no time, ainda era o grande jogador, decidindo muitas partidas. Em 1997 o clube fez parceria com o Banco Excel, trazendo bons jogadores, tendo efeito no desempenho do elenco, mas Marcelinho ainda era o dono do time, conquistando o Campeonato Paulista daquele ano. Após a conquista, foi negociado ao Valencia, da Espanha, para ganhar experiência num time internacional, com o objetivo de jogar na Seleção Brasileira, já que a Copa do Mundo se aproximava e havia sido convocado apenas uma vez pelo técnico Mário Jorge Lobo Zagallo. Sua passagem não foi das mais felizes e no início do outro ano já estava de volta ao Brasil, sendo realizada uma espécie de leilão entre os clubes paulistas, com os torcedores ligando para que fosse contratado pelo seu time e, claro, que o Corinthians foi o vencedor. Iniciava uma nova fase da sua carreira, jogando agora ao lado de jogadores com nível de seleção e favorecido depois com o acordo com a empresa norte-americana Hicks Muse, formando o melhor elenco do futebol brasileiro. Vieram o Bicampeonato Brasileiro de 1998/99, os Paulistões de 1999 e 2001 e o primeiro Mundial Interclubes da Fifa de 2000. A fase era tão boa, que voltou à Seleção Brasileira em 1998, com o técnico Wanderley Luxemburgo, que comandava ainda o Corinthians, sendo convocado para dois jogos, marcando em ambos. Teve uma nova chance com a Amarelinha apenas em 2001, já sob o comando do treinador Emerson Leão. Mas a sua fase no Parque São Jorge estava desgastada, tendo desentendimentos com um dos grandes jogadores do time, o meia-esquerda Ricardinho, o que decidiu a sua saída da equipe. Retornou em 2006, mas já estava praticamente em final de carreira, além de esbarrar com o gênio de Leão, que na ocasião treinava o time. É ídolo até hoje da nação corinthiana, conseguindo por sinal a respeitável marca de ser o quinto maior goleador da história do Corinthians. Marcelinho Carioca, um dos imortais do clube.

E recentemente o meia Jadson brindou a torcida corinthiana com suas cobranças de falta, sendo um dos principais responsáveis pela conquista do título brasileiro de 2015.

Pedro Grané, Hércules, Cláudio, Rivellino, Zenon, Neto e Marcelinho, sem sombra de dúvidas, foram os maiores cobradores de faltas da história do Corinthians. Apontar um melhor é difícil, pois cada um foi decisivo em suas respectivas características. Alguns nomes como Goiano, Gralak, Branco, Célio Silva e Roberto Carlos também tiveram certo destaque. Incluo também o defensor Chicão, que tentou igualar a marca de Grané como zagueiro que mais gols marcou pelo time. Mas esses defensores estão longe de se igualar os sete citados, os Reis da Bola Parada.

Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Por Maurício Sabará Markiewicz

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

O que você achou do post do Maurício Sabará?