Temos estádio desde 1918

Maurício Sabará

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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Temos estádio desde 1918

Temos estádio desde 1918

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Foto: Arquivo Pessoal

O que era motivo de piada para os adversários deveria ser para o torcedor corinthiano. Quem de vocês não lia e ouvia a gozação que o Corinthians era um clube sem estádio? Bom, na falta de um, conforme as insinuações posso afirmar que dos clubes da capital é o que tem estádio há mais tempo e também o único que teve três, com dois atualmente, em ampla atividade.

Antes de exemplificar nossas casas, faço questão de prestar uma homenagem ao Campo do Lenheiro. Foi onde os jogadores corinthianos treinavam desde o início do clube, em 1910, realizando jogos até 1913. Era de propriedade de um vendedor de madeiras e ficava localizado na Rua dos Imigrantes, que hoje conhecemos como José Paulino, no Bairro do Bom Retiro. As duas primeiras vitórias corinthianas (primeira e segunda partida, em 14 e 27 de setembro) ocorreram no campo, contra o Estrela Polar por 2 a 0 (Luiz Fabbi foi o autor do primeiro gol da história alvinegra) e Associação Athlética da Lapa pelo placar de 5 a 0 (time composto por jogadores ingleses). Depois houve importantes vitórias na Várzea.

A torcida, já naquela época, era bem numerosa, então o modesto campo de treino ficou pequeno para comportá-la. Na capital paulista o time corinthiano teve que jogar em estádios maiores até o período de 1917. Foram eles o Velódromo, Parque Antárctica (pertencia do Germânia, um clube alemão) e Floresta.

Em 17 de julho de 1916, antes do segundo título paulista obtido pelo Corinthians, o político Alcântara Machado, em comum acordo com a prefeitura de São Paulo de Washington Luis, cedeu um terreno localizado próximo onde conhecemos hoje como Ponte das Bandeiras, que faz parte do Clube Atlético Tietê. O presidente corinthiano da época, João Baptista Maurício, pagou um valor de mais de 100 mil réis e o assentamento de terra ficaria disponível depois da inauguração do estádio durante um período de 10 anos. E não foi nenhuma Empreiteira que construiu o primeiro estádio corinthiano, mas sim os próprios jogadores em um sistema de mutirão. Amilcar e Neco, junto com os companheiros, trabalharam pela obra com muito amor, sem receber um tostão sequer, mas com o sonho de ver o seu clube de coração tendo sua própria casa.

No dia 17 de março de 1918 o sonho de quase 2 anos acontece. Um empate de 3 a 3 com o Palestra Itália marcou a inauguração do Estádio da Ponte Grande. Por sinal os corinthianos, em seus primeiros confrontos contra os palestrinos, não estavam conseguindo a vitória. A nova casa deu ânimo para os valentes alvinegros e os resultados positivos começaram a acontecer.

Duas importantes observações devem ser lembradas em relação à Ponte Grande. No Tricampeonato Paulista em 1922/23/24, somente o Bi (1923) foi conquistado dentro do estádio, com uma vitória por 3 a 0 contra o São Bento. E a outra, de caráter histórico mesmo, é que o Corinthians, dos times atuais do futebol da capital paulista em atividade, é o primeiro que teve um estádio. Para efeito de curiosidade, o Palestra Itália obteve sua primeira e única casa em 1920, dois anos depois do Sport Club Corinthians Paulista. Portuguesa de Desportos e São Paulo nem tinham sido fundados.

Como expliquei a primeira casa corinthiana não seria para sempre do Corinthians. Sua capacidade para 8 mil torcedores, por incrível que pareça, seria depois considerada pequena para a já grande e vibrante torcida. Claro que os dirigentes corinthianos já sabiam, tanto é que em 1926 o presidente Ernesto Cassano, de forma visionária, comprou o terreno do Parque São Jorge, pertencente ao Sírio, pelo valor de 750 mil réis, que seria pago por 10 anos. Curiosamente o Corinthians já tinha jogado em seu futuro estádio, no dia 25 de janeiro de 1923, com uma vitória por 1 a 0 contra o Sírio, que tinha o goleiro Tuffy, que de 1928 a 1931 brilharia no gol corinthiano.

Continuou mandando jogos até 1927, com a Fazendinha se dedicando mais à prática do remo, esporte que o Corinthians ganhou muitos títulos, facilitado também pela localização da nova casa, ao lado do Rio Tietê, muito limpo naquele tempo.

Finalmente, em 22 de julho de 1928, ocorre a inauguração. Um empate de 2 a 2 com o America, na época um dos principais times do futebol carioca, marca a inesquecível estréia. O ponteiro esquerdo De Maria foi autor do primeiro gol do estádio, anotado com menos de 1 minuto de partida. Surgia um período glorioso da história mosqueteira, marcado pelo Tricampeonato Paulista de 1928/29/30.

Foram três títulos paulistas vencidos dentro do Parque São Jorge (1928, 1938 e 1939). Desde aquela época o estádio era conhecido como Alfredo Schurig, em homenagem ao dirigente corinthiano que tanto contribuiu financeiramente para a sua construção e manutenção, que depois seria presidente no início da década de 30, mas tendo azar de presidir em um período difícil do time.

Com o surgimento do Pacaembu em 1940, com capacidade para 70 mil torcedores, obviamente que o Parque São Jorge deixou de ser o principal estádio paulistano. Mas o Corinthians continuou sediando partidas importantes até os Anos 60. Sua capacidade era para mais de 30 mil torcedores, algo surpreendente por suas instalações modestas que podemos ver atualmente, comportando mais jogos de times das categorias de base e de veteranos. Em 25 de outubro de 1959, quando venceu a Ferroviária de Araraquara por 2 a 0, ocorreu o recorde de público, estando presentes quase 33 mil torcedores, muitos deles colados no alambrado. Meu pai estava presente no histórico jogo.

Um detalhe muito pouco conhecido e comentado é que a Fazendinha foi sede das partidas de futebol ocorridas nos Jogos Pan-Americanos de 1963. É uma prova da força corinthiana na realização de grandes eventos internacionais.

Todos sabem que nos Anos 40 e especialmente nos 50 o Pacaembu foi a casa corinthiana para suas grandes apresentações. Mas desde a época da presidência de Alfredo Ignácio Trindade já se pensava na construção de um monumental estádio, com capacidade para 200 mil torcedores, da mesma forma que era o Maracanã. Infelizmente tanto na gestão de Trindade, Wadih Helu, Vicente Matheus e Waldemar Pires, tal utopia ficou apenas na promessa e maquete. O torcedor corinthiano tinha que se contentar em mostrar a sua força em outros estádios, como o próprio Pacaembu e o Morumbi, esse último tendo a maior lotação justamente em um jogo do Corinthians, no segundo jogo da decisão do título paulista de 1977. O próprio Maraca viu a força da Fiel Torcida na inesquecível invasão no Brasileirão de 1976.

Mas em 2014 o sonho real acontece com a inauguração da Arena de Itaquera, que também foi palco de um grande evento internacional, a Copa do Mundo e sendo com muito orgulho o estádio corinthiano, considerado por muitos o mais moderno do Brasil.

Os tempos são outros, pois mesmo a população sendo maior, não existe possibilidade de um estádio com a capacidade para 200 mil pessoas, ainda mais as torcidas não sendo mais divididas. O número de 40 mil supre bem a exigência e presença do torcedor, mesmo sabendo que ainda tem setores vazios, algo que com certeza será resolvido em breve.

Sport Club Corinthians Paulista, tu és orgulho por ter um grande passado internacional e também por sempre ter uma casa própria!!! A história está aí para não ser desmentida.

Coluna do Maurício Sabará Markiewicz

Por Maurício Sabará Markiewicz

Nascido em São Paulo no dia 12 de janeiro de 1976, jornalista formado e profundo conhecedor da história do Corinthians. Autor do livro sobre ilustre corinthiano: 'O Generalíssimo Amilcar Barbuy'.

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