Casagrande é cada vez menos ídolo do Corinthians

Memória Fiel

Nostalgia alvinegra que vai além dos jogos, gols e súmulas. Aqui reviramos os arquivos para reencontrar as várias pequenas histórias e detalhes que formam a gigantesca história do Corinthians.

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Casagrande é cada vez menos ídolo do Corinthians

Casagrande é cada vez menos ídolo do Corinthians

Casagrande se beneficia até hoje do Corinthians

Foto: Divulgação

Em 1994, Casagrande voltou a vestir a camisa do Corinthians e teve a oportunidade de mostrar aos corinthianos mais novos porque os torcedores mais antigos o reverenciavam.
Essa oportunidade foi jogada fora, porque o atacante fez muito pouco em campo e não fez nada digno de nota durante aquela passagem. Minha única memória daquele período era ver um cara alto e cabeludo fazendo aquecimento ao lado do Tupãzinho. Naquele ano, foi muito mais marcante, por exemplo, o aniversário do Zé Elias, no Pacaembu… mas essa é outra história.

O fato é que desde 1994 eu tento entender porque Casagrande é considerado ídolo do Corinthians. Quanto mais vou atrás, menos entendo. Quanto mais pesquiso, menos enxergo o atacante como alguém que deva ter espaço cativo na nossa história.

Alguns exemplos a seguir.

Em agosto de 1985, a revista Placar trouxe uma entrevista com o atacante, que havia saído de forma conturbada do Corinthians e ido jogar no São Paulo. O jogador trocava a “democracia” por um clube comandado por gente ligada à ditadura e dizia-se tão feliz que gostaria de ficar por lá 10 anos. É possível resumir a entrevista toda em uma resposta.

Antes disso, você se declarava acima de tudo corinthiano. E agora?
"Eu era corinthiano. Agora, sou profissional".

Casagrande, na Placar

Reprodução / Arquivo Placar

Mas também vale a pena destacar alguns outros trechos do trabalho do repórter Ari Borges, quando Casagrande posa de vítima, dizendo que foi escorraçado sem motivo pelo Timão.

“Foi a fase mais terrível da minha vida. Pensei em pegar uma graninha que tinha guardado e sumir do mapa, montar um negocinho longe daqui. Mas, quando estava quase desesperado, resolvi forçar a barra com a diretoria e acabei no São Paulo…

Na mesma época era fácil ler nos jornais sobre as tinha brigas públicas de Casagrande com Leão, com colegas, técnicos, diretoria e até aparições do atacante em jogos de várzea -- nas mesmas datas em que deveria estar representando o Corinthians. Não cabe aqui julgar quem estava certo ou errado, mas é impossível não notar que o individualismo sempre falou mais alto.

Em outra entrevista, dessa vez para a revista Trip, em 2016, Casagrande relembra seu auge e novamente coloca a culpa nos outros para seus erros.

Trip - E você acabou sendo preso no final de 1982, por porte de cocaína. Na biografia você diz que foi plantada pela polícia...
"O meu melhor ano no profissional foi apagado por causa disso. Fui campeão paulista. Fui artilheiro com 28 gols. Fazia 16 anos que um jogador do Corinthians não era artilheiro. Tinha tudo para deslanchar, ser titular absoluto da seleção brasileira. Fui preso e voltei à estaca zero".

Seria comovente, se não fosse contraditório. No próprio livro “Casagrande e Seus Demônios” (Gilvan Ribeiro, Globo Livros), há relatos de Casagrande consumindo drogas nos bastidores dos shows que rolavam no ginásio do Parque São Jorge.

Na mesma Trip, alguns anos antes, essa mesma contradição veio à tona. Quando não se diz perseguido, Casagrande se diz arrependido de defender certas ideias. O que talvez explique o seu atual silêncio e falta de posicionamento político.

Na edição 101 da Trip, publicada em 2002, Casagrande declarou ao repórter Ronaldo Bressane que não gostava de ler suas entrevistas antigas, além de dizer que achava futebol chato. Também assumiu que era fã do PT e votaria em Lula. Mas como acreditar em alguém que diz o seguinte:

Trip - Você costuma dizer que não gosta de ler entrevistas antigas suas...
"Verdade. Olho aquilo e falo: que puta papo idiota. Rasgo".

Casagrande, na Trip

Reprodução / Arquivo Trip

Todo mundo tem o direito de mudar de ideia. Todo mundo tem direito de falar o que quiser. Até falar mal do Corinthians por puro rancor pode. O que acho estranho é um cara com esse histórico ainda ser considerado ídolo. Tivemos tantos outros bons atacantes, com mais taças, mais gols e mais respeito ao Timão.

Para ficar só nos mais famosos: Palhinha, Viola, Luisão, Edílson, Liédson, Dinei. Todos honraram o manto. Ao contrário do “Casão”, que muitas vezes briga com a realidade, e sempre separa palavras amargas para falar do Corinthians.

Mais um exemplo para encerrar. Em entrevista ao Redação Sportv, em 2013, Casagrande classificou sua volta ao Corinthians em 1994 como um erro.

Acho que foi um erro da torcida, da diretoria e um erro meu. Ter caído no jogo emocional, de se envolver emocionalmente com uma situação. Eu tinha contrato com o Flamengo, poderia ter ficado lá. Porque no dia que eu fui assinar o contrato com o Corinthians, na minha cabeça eu ia ver Sócrates, Wladimir, Solitinho, os meus amigos da época. Pessoas que eu não ia encontrar mais lá. Eu estava voltando para um Corinthians do passado. E não era a realidade. Estava voltando para um momento do Corinthians que não tinha nada a ver comigo. A minha história no Corinthians tinha acabado. Foi algo desnecessário".

Na boa, foi um erro mesmo. Casagrande se beneficiou e se beneficia do Corinthians muito mais do que o Corinthians se beneficiou dele.

Veja mais em: Ex-jogadores do Corinthians e Ídolos do Corinthians.

Coluna do Juliano Barreto

Por Juliano Barreto

Jornalista, biógrafo, maloqueiro e sofredor. Desde 1993 recorta jornais, revistas e guarda tudo relacionado ao Coringão. Neste blog, vamos tirar a poeira desses arquivos e matar as saudades.

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