O melhor Corinthians que eu vi jogar

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Celso Dario Unzelte, jornalista e pesquisador, é comentarista das televisões por assinatura ESPN/ESPN Brasil, do programa Cartão Verde (TV Cultura) e professor de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero

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O melhor Corinthians que eu vi jogar

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O melhor Corinthians que eu vi jogar

Ronaldo fenômeno entra como atacante no meu time dos sonhos do Corinthians

Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Na coluna desta semana, eu vou me permitir responder uma pergunta particular, que o José Carlos Stabile, de Castro (PR) (e também muita gente), me faz: vou escalar o melhor Corinthians entre os jogadores que eu vi atuar. Aproveito pra convidar todo mundo a publicar seus posts aqui, escalando também o melhor Timão que cada um viu.

Faça como o José Carlos! Nós, aqui, vamos continuar respondendo as dúvidas dos internautas do site Meu Timão sobre história, estatísticas ou qualquer outro tipo de curiosidade ligada ao clube, como essa. A base para as respostas será sempre o Almanaque do Timão, trabalho que desenvolvo há mais de 20 anos sobre todos os jogos, jogadores e técnicos do nosso time desde 1910. Ele virou livro em 2000, foi reeditado em 2005 e agora existe na forma do APLICATIVO ALMANAQUE DO TIMÃO, para smartphones e tablets, que pode ser baixado (de graça!!!) via Apple Store ou Google Play. Nos dias (e noites) de jogos, esse aplicativo oficial do Corinthians continua sendo atualizado on line.

E o APLICATIVO ALMANAQUE DO TIMÃO traz uma novidade: o GAME DO TIMÃO, uma plataforma de questões de múltipla escolha em que acertos e velocidade de resposta somarão pontos para um ranking geral de usuários cadastrados. Os mais bem ranqueados receberão prêmios periódicos (semanais, mensais, semestrais e anual), como réplicas de camisas antigas, camisas oficiais, camisetas, relógios, bijuterias, bonés e livros, além de visitas acompanhadas ao Memorial do Clube, no Parque São Jorge, e até ingressos de cortesia para jogos na Arena Corinthians.

CELSO UNZELTE

Celsão, qual foi o melhor Timão que você viu jogar?

José Carlos Stabile

Antes de tudo, é preciso deixar claro que nasci em 27 de fevereiro de 1968, exatos oito dias antes do Corinthians vencer o Santos de Pelé por 2 a 0, quebrando um tabu sem vitórias pelo Campeonato Paulista que já durava mais de dez anos. Tenho, portanto, 48 anos e acompanho o Corinthians jogo a jogo desde a noite mágica de 13 de outubro de 1977.

Como time, a melhor equipe que vi jogando junta foi a bicampeã brasileira em 1998/99 e campeã mundial em 2000. Juntando todos os jogadores daquele período — mesmo sabendo que o Gamarra foi embora logo depois da conquista do Paulista de 1999 e o Fábio Luciano só chegou um pouco antes do Mundial de 2000 —, daria pra escalar: Dida, Índio, Fábio Luciano, Gamarra e Kléber; Rincón, Vampeta, Ricardinho e Marcelinho; Edílson e Luizão.

Já os melhores jogadores que eu vi em cada posição nesses quase 40 anos (que eu acho que é o que você quer saber) são os seguintes:

GOLEIRO – Ronaldo (1988 a 1998)

Dida pode até ter sido melhor e conquistado títulos mais importantes — um Mundial, um brasileiro, uma Copa do Brasil e um Rio-São Paulo, contra um Brasileiro, uma Copa do Brasil e três paulistas. Mas Ronaldo Soares Giovanelli (*São Paulo, SP, 20/11/1967) foi criado no próprio clube, honrou a camisa do Corinthians por muito mais tempo (dez anos) e de uma maneira que nenhum outro goleiro fez até hoje. Tecnicamente era ótimo, debaixo dos três paus era quase perfeito. Pena que perdia a cabeça demais, sendo expulso muitas vezes, o que inclusive o impediu de ter mais chances na Seleção Brasileira. Em número de partidas, com 602, em toda a história corinthiana ele só fica atrás de Wladimir (805 jogos) e de Luizinho, o “Pequeno Polegar” dos anos 50 (606). Sua média de gols sofridos (587 em 602 jogos, ou 0,9 por partida, portanto inferior a um) é quase um milagre, considerando-se a qualidade bem discutível dos jogadores da nossa defesa naquela época.

LATERAL-DIREITO – Zé Maria (1970 a 1983)

O eterno Deus da Raça Corinthiana, capitão do time campeão paulista depois de mais de 22 anos, em 1977, e campeão também em 1979, 1982 e 1983, já revezando-se com outros jogadores mais jovens. Pela direita, com sua força física, José Maria Rodrigues Alves (*Botucatu, SP, 18/5/1949) era a esperança de parar os adversários, em um tempo em que o lateral servia para marcar o ponta e, pela esquerda, o Palmeiras tinha Ney, o Santos tinha Edu e o São Paulo tinha Zé Sérgio. Além de ser do Superzé a primeira cabeça que a gente via na boca do túnel, chamando os companheiros para a luta, quando o time entrava em campo. Já veterano, ele assumiu também a responsabilidade de cobrar pênaltis, inclusive o último e decisivo da série contra o Fluminense, no jogo da célebre invasão da Fiel ao Maracanã, em 1976. Na lateral direita, faço uma menção honrosa ao Alessandro, que renasceu após uma falha que poderia ter sido decisiva — no gol perdido por Diego Souza, do Vasco, nas quartas de final da Libertadores de 2012 — para ser o capitão do time campeão sul-americano e mundial naquele mesmo ano.

ZAGUEIRO – Gamarra (1998/99)

O miolo de zaga é, de longe, o setor do campo em que o Corinthians teve mais dificuldade para encontrar grandes jogadores nesses últimos 40 anos, em que acompanhei a equipe. O paraguaio Carlos Alberto Gamarra Pavón (*Ypacaraí, Paraguai, 17/2/1971) foi uma exceção. Vindo do Benfica, de Portugal, após uma passagem vitoriosa também pelo Internacional, no Timão ele jogou pouco tempo (entre março de 1998 e junho de 1999). Mas suficiente para ganhar os campeonatos Brasileiro de 1998 e Paulista de 1999 como capitão e se tornar um dos maiores zagueiros da história do Corinthians, além do melhor do mundo em sua época. Compensava a estatura apenas mediana para um zagueiro (1,79 metro) com uma colocação perfeita e desarmes precisos. Na Copa de 1998, pelo Paraguai, completou 724 minutos sem cometer uma única falta, o equivalente a oito partidas.

ZAGUEIRO – Chicão (2008 a 2012)

Durante muito tempo, na hora de escalar um companheiro de zaga para o incontestável Gamarra no melhor Corinthians que vi jogar, eu costumava apelar (sem muita convicção, é verdade) para Marcelo, que atuou de 1987 a 1993. Esse meu problema acabou de vez com Anderson Sebastião Cardoso, o Chicão (*Mogi-Guaçu, SP, 3/6/1981). Ele chegou do Figueirense, já perto dos 27 anos, para ajudar a reconstruir o time que no final de 2007 havia caído para a Série B do Brasileiro. Com seu futebol sério, formou zagas muito seguras, primeiro com William, depois com Leandro Castán e Paulo André, conquistando os principais títulos possíveis: Série B do Brasileiro em 2008, Copa do Brasil em 2009, paulista em 2009 e 2013, brasileiro em 2011, Libertadores e Mundial de Clubes em 2012 e Recopa Sul-Americana em 2013. De quebra, com 42 gols marcados em 247 jogos (a maioria deles em cobranças de faltas e pênaltis, suas especialidades), Chicão entrou para a história como o segundo maior zagueiro-artilheiro do Corinthians, atrás apenas de Grané, que entre 1924 e 1932 fez 48 gols.

LATERAL-ESQUERDO – Wladimir (1972 a 1985 e 1987)

Recordista de jogos (805) e de partidas seguidas (161) sem se machucar ou ser suspenso ao longo de mais de dois anos, Wladimir Rodrigues dos Santos (*São Paulo, SP, 29/8/1954) é outro que foi revelado pelo próprio Corinthians. Passei minha infância inteira e parte da adolescência gritando: “´Waldimir, oba! É Wladimir, oba!” E vendo ele desarmar os adversários com carrinhos precisos, saindo com a bola sempre com muita categoria. No histórico título de 1977, foi Wladimir quem cabeceou a bola salva em cima da linha pelo zagueiro Oscar, da Ponte Preta, pouco antes de Basílio fazer o gol da libertação. Campeão paulista, ainda, em 1979 e bi em 1982/83, na melhor fase de sua carreira, ele foi também um dos líderes da Democracia Corinthiana, ao lado de Sócrates e Casagrande.

PRIMEIRO VOLANTE – Rincón (1997 a 2000 e 2004)

Capitão que levantou a taça do primeiro Mundial, em 2000, bicampeão brasileiro em 1998/99 e paulista em 1999, originalmente o colombiano Freddy Eusébio Gustavo Rincón Valencia (*Buenaventura, Colômbia, 14/8/1966) jogava na meia. Foi assim que ele brilhou principalmente na Seleção Colombiana, no Palmeiras e no Real Madrid, da Espanha. No Corinthians, onde chegou já aos 31 anos, recuou para a posição de volante, formando uma grande dupla com Vampeta. Com seu toque de bola cadenciado e protegendo-a com os braços abertos, pena que tenha trocado o Timão pelo Santos logo depois da conquista do Mundial de 2000. Pena, também, que quando voltou, em 2004, aos 37 anos, nem ele nem o Timão eram mais os mesmos.

MEIA-DIREITA – Sócrates (1978 a 1984)

Um craque dentro de campo, onde foi três vezes campeão paulista pelo Timão, em 1979, 1982 e 1983. E também fora dele, ao inspirar toda uma geração de torcedores (e de brasileiros) com os ideais da Democracia Corinthiana, da qual era o principal símbolo. Com seus toques de calcanhar e sua liderança, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (*Belém, PA, 19/2/1954 - +São Paulo, SP, 4/12/2011) mudou a cara do próprio Corinthians, de um time traumatizado pela ausência de títulos para uma equipe vencedora. O Doutor nos emocionaria uma vez mais ao morrer justamente no dia em que o Timão conquistou seu quinto título de campeão brasileiro.

MEIA-ESQUERDA – NETO (1989 a 1993 e 1996/97)

Como não cheguei a ver Rivellino jogar pelo Corinthians, fico à vontade para dar a José Ferreira Neto (*Santo Antônio de Posse, SP, 9/9/1966) a camisa 10 da minha seleção de todos os tempos. Afinal, dos 23 gols marcados pelo Corinthians campeão brasileiro pela primeira vez, em 1990, nove foram dele, cinco dos quais dentro de sua maior especialidade, as precisas cobranças de faltas. Nas quartas de final daquele Brasileirão inesquecível, ele fez os dois na vitória por 2 a 1, de virada, sobre o Atlético Mineiro, no Pacaembu (o que valeu a vitória foi de cabeça, fato raro em sua carreira). Nas semifinais, repetiu a dose contra o Bahia, também no jogo de ida, em São Paulo, também de virada, forçando o volante Paulo Rodrigues a marcar contra após uma venenosa cobrança de escanteio e virando o jogo com outro gol — de falta, é claro. Ótimo lançador, dono de um chute potente e de efeito com a perna esquerda, Neto foi o Xodó da Fiel até 1993. E ainda voltou a tempo de ser campeão paulista, como reserva, em 1997.

MEIA-ATACANTE – MARCELINHO (1994 a 1997, 1998 a 2001, 2006 e 2010)

Marcelo Pereira Surcin (*Rio de Janeiro, RJ, 31/12/1971), o Marcelinho Carioca, é o jogador mais recente na lista dos que mais fizeram gols pelo Corinthians (aparece em 5º lugar, com 206 marcados) e entre os que mais jogaram (13º, com 433 partidas). Além disso, ninguém tem mais títulos pelo Timão (dez) do que ele: foi campeão mundial em 2000, Brasileiro em 1998 e 1999, da Copa do Brasil em 1995, paulista em 1995, 1997, 1999 e 2001, da Copa Bandeirantes em 1994 e do Troféu Ramón de Carranza em 1996. O apelido “Pé de Anjo” veio da chuteira número 35 e meio com a qual cobrava faltas com perfeição. Voltou ao Timão rapidamente em 2006 e para uma partida de despedida, contra o Huracán, da Argentina, em 2010, à qual levei o meu filho só para vê-lo jogar.

ATACANTE – TEVEZ (2005/2006)

O argentino Carlos Alberto Tevez (*Buenos Aires, Argentina, 5/2/1984) é daquele tipo de jogador que o corinthiano mais gosta: raçudo e ao mesmo tempo bom de bola. Para ele, não existia bola perdida, e por isso tornou-se ídolo apesar do pouco tempo de casa. Colaborou diretamente para a conquista do título brasileiro de 2005 com seus gols e arrancadas. Titular da Argentina na Copa do Mundo de 2006 ainda como jogador do Corinthians, Tevez só foi embora depois que a malfadada parceria com o grupo MSI começou a fazer água e o então técnico Emerson Leão tirou-lhe a faixa de capitão. Depois disso, continuou brilhando na Inglaterra, na Itália e voltou para o Boca Juniors.

CENTROAVANTE – RONALDO

Em quase 40 anos vendo jogos do Corinthians no estádio, somente uma vez eu virei as costas para o campo e comemorei um gol antes da bola entrar, sem medo de errar. Foi na noite de 17 de junho de 2009, data do primeiro jogo da final da Copa do Brasil daquele ano, contra o Inter, no Pacaembu, quando Ronaldo Luiz Nazário de Lima (*Rio de Janeiro, RJ, 22/9/1976), o “Fenômeno”, deu um corte no zagueiro Índio antes de marcar o segundo do Corinthians naquela vitória por 2 a 0 que abriu o caminho para mais um título. Tetracampeão mundial aos 17 anos, penta aos 25, três vezes escolhido pela Fifa como o Melhor Jogador do Mundo, em 1996, 1997 e 2002, Ronaldo já chegou ao Timão consagrado. Ao vestir a camisa de um outro fenômeno, porém, conseguiu tornar-se ainda maior. No Campeonato Paulista, marcou 8 gols em 10 partidas, incluindo os decisivos contra o Palmeiras (o primeiro após sua volta), o São Paulo (nas semifinais) e o Santos (aquele golaço po cobertura no primeiro jogo da final). Na decisão da Copa do Brasil, contra o Internacional, deixou sua marca na primeira partida. O Corinthians conquistou ambos os títulos e Ronaldo firmou-se definitivamente como a principal estrela da equipe às vésperas da comemoração do Centenário. Foi pouco, mas muito bom enquanto durou.

Game do Timão

Coluna do Celso Dario Unzelte

Por Celso Dario Unzelte

Celso Dario Unzelte, jornalista e pesquisador, é comentarista das televisões por assinatura ESPN/ESPN Brasil, do programa Cartão Verde (TV Cultura) e professor de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero

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