Corinthianismo 1990

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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Corinthianismo 1990

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Corinthianismo 1990

Tupã era leve, arisco. Havia chegado um ano antes vindo do São Bento de Sorocaba. Era um talismã. Um amuleto da sorte

Foto: Daniel Augusto Jr.

"Ero ero ero, Cabaço Brasileiro!".

Desculpem a vulgaridade, mas era isso que se ouvia nos estádios das torcidas rivais para humilhar a torcida do Corinthians. Isso até aquele dia de 16 de dezembro de 1990.

Eu até que entendo bem quem acha chato ver a torcida corinthiana repetir por dois milhões de vezes o bordão "O Palmeiras não tem Mundial". Até musiquinha fizemos. Ou quem não suporta mais a brincadeira com a freguesia do São Paulo FC em jogos contra o Corinthians. Aliás, o clube do Morumbi já amarga também uma fila considerável.

Eu acho é pouco pelo o que já sofremos.

Ao decorrer da nossa história, sempre quiseram humilhar o Corinthians, seja por nossa identidade humilde, seja também por nossas dificuldades estruturais.

Vejam só, hoje as outras torcidas se desfazem inclusive dos campeonatos nacionais, em detrimento da Libertadores que é um campeonato usurpado e corrompido. Da mesma forma, as conquistas estaduais do Sport Club Corinthians Paulista eram banalizadas. Ora, durante boa parte de nossa história quase que não existiam competições nacionais. O mundo não parecia ser tão pequeno, como se faz hoje.

Mas todos sabem como funciona com o Corinthians. Os desafios nos são colocados. São inventados. São construídos para que sejam aparentemente insuperáveis. Sempre fizeram isso para que nos sentíssemos marginalizados. Era para nos fazer abaixar a cabeça. Mas o Corinthians, como nos momentos mais especiais da nossa era se revelou grande e utilizamos as vibrações opressivas em energia motivadora e combustível para a transformação e superação, desde 1º de setembro de 1910.

Dezembro é um mês maravilhoso para a história do Corinthians. E nesse lindo mês, em 1976, o Corinthians havia realizado um dos maiores feitos da história da humanidade. Um imenso deslocamento humano que consagrou a Invasão ao Maracanã, para vencer a semifinal contra o Fluminense (que tinha um time incrível). Embora o Timão tenha sofrido uma imensa sabotagem na final contra o Internacional, ali naquele momento ficava pela primeira vez o gostinho da conquista do Brasileirão.

Mas eram anos de glória para outros clubes brasileiros. Não era fácil a vida do Corinthians. Tropeçávamos muito em jogos bestas. Muitas vezes desmontávamos elencos despois do Paulistão e iniciávamos o nacional sem planejamento. Era terrível. Com o time da Democracia Corinthiana veio mais uma esperança, mas ficou para a posteridade uma sensação que se tivéssemos um pouco mais de ambição teríamos vencido naquele momento.

Não era fácil ver o Corinthians no Campeonato Brasileiro. Mas as coisas foram crescendo. Em 1989 até que não fizemos tão feio e pudemos ter a grande alegria de eliminar o Palmeiras com um gol antológico do Cláudio Adão no Morumbi. Comemoramos como um título, mas ainda não era o título.

Haveria de ser em 1990? Tínhamos alguns valores remanescentes do Campeonato Paulista de 1988. O Ronaldo que desde seu primeiro jogo se fez um pedaço do Corinthians dentro de campo. Não se sabia ao certo onde terminava o goleiro e onde começava uma espécie de incorporação da mística corinthiana no gramado. Era um pedaço de nós lá dentro. O Marcelo também havia sido do time titular campeão dois anos antes. Era um zagueiraço formado no Corinthians. Tinha ascendência armênia e carregava consigo o sangue de uma família e uma nação verdadeiramente corinthianas. O Márcio que era um “volante volante”. Parecia pouco importar se o Márcio era bom ou ruim. Tudo era compensado num jogador sério, bravo, com imenso senso de dever. Ah, e também formado no Corinthians. O Wilson Mano já fazia alguns anos que estava no Corinthians, mas agora sim se firmava como um jogador de confiança do torcedor. Era um monstro que jogava em qualquer posição no campo. Estava iluminado.

Mesmo assim, a tarefa não parecia ser possível em 1990. Além dos jogadores que tinham sido campeões em 1988, preenchemos o elenco com outros tantos jogadores do terrão que carregavam o piano. E num processo de renovação, o Corinthians havia trazido alguns valores que não se sabia ainda a capacidade de produção e de decisão. Fabinho, Tupanzinho e Giba se revelariam grandiosos.

Mas para que a história se consagrasse era preciso que tivéssemos um redentor. Alguém escolhido para superar não somente as barreiras dos jogos jogados, mas que reunisse grande personalidade para suportar o peso da camisa corinthiana e fazer com que o Corinthians vencesse moralmente. Que nos desse força. Alguém que conseguisse mobilizar a torcida e a fizesse mover montanhas por esse projeto. Alguém que fizesse o que ninguém faz. Alguém que ganhasse os jogos. Que pusesse medo nos adversários. Alguém que arrancasse de nós os complexos e mudasse a nossa história.

E esse jogador havia chegado um pouquinho antes. Desde o início nos deu confiança. Sempre foi craque. Mas em 1990 encontrou sua plenitude, não somente para capacidade técnica e física, mas porque agora jogava pelo seu Sport Clube Corinthians Paulista. Esse homem é José Ferreira Neto.

Sabe aquele jogador que a gente vê jogando em outros clubes e sempre pensa assim: “hummm, esse tem a cara do Corinthians. Se viesse pra cá faria história”. Mas como a vida do Corinthiano não é fácil, vimos além de fazer um gol de bicicleta contra o Corinthians nas finais de 88, como ser contratado pelo Palmeiras. Aquilo doía no coração. Era uma injustiça histórica.

Mas como Neto era o escolhido. Como as letras tortas da vida iriam se corrigir e os astros se sincronizar em harmonia perfeita, entrou em atrito com o técnico Leão e na grande obra crepuscular de Vicente Matheus chegaria ao Parque São Jorge.

O grande jogador mundial da época era o Maradona, que anos antes havia também redimido a Argentina e carregado a sua seleção à conquista da Copa do Mundo de 1986. Eram inevitáveis as comparações, não só com o talento, mas principalmente com a importância que Neto viria a ter na conquista corinthiana de 1990.

Chegamos à fase final do campeonato quase repetindo de ano. Entramos pela beirada, em oitavo lugar.

Jogo no Pacaembu contra o Atlético Mineiro. Eles tinham um time muito bom. Começamos perdendo. A noite brilhava. A garganta secava. Mais uma vez ficaríamos no meio do caminho? Segundo tempo, a torcida eleva o tom. O Pacaembu estava corinthianizado e o ar parecia ter cor. Levanta-se a placa de substituição. Nelsinho iria tirar o Neto. Como assim? Neto estava muito bem no jogo. Concentrado. Jogava com extrema raça e era o atleta mais perigoso do nosso time. Mas o técnico estava decidido. Ele iria sair. Lateral para o Corinthians de ataque, do lado direito. Bola no Dinei. Mais um garoto da base. Dinei cruza. Neto sobe de cabeça com imenso apetite e uma certeza de que faria o gol que só ele tinha. É gol! Meu Deus! Estamos no jogo.

Falta para o Corinthians. Bola parada na risca divisória do gramado, bem no meio do campo. Neto cobra rápido e faz um lançamento na ponta esquerda. Neto percorre o gramado e em alguns segundos já está na grande área. Bola cruzada para o Tupãzinho. Não dominou. A bola escapou do pé dele. A bola segue seu curso e se oferece para o pé esquerdo do Neto. Faz Neto, vai. Chuta. É gol! Ah, é gol! Gol do Corinthians! Viramos o jogo. Gritos vindos do estômago.

Estávamos na semifinal contra o Bahia. Novamente começamos perdendo. Mas não éramos mais o mesmo time de outrora. Sabíamos que tínhamos força para virar. E assim fizemos. Uma cabeçada do Giba, tumulto na área e gol contra. Falta próxima da meia-lua. Estava no meu quarto. Coloquei o rádio no último volume. Coloquei todas as minhas revistas Placar em cima da escrivaninha. Tinha 14 anos, àquela altura tudo na minha vida dependia daquilo. Novamente o Neto decidiu. Foi Gol! Que alegria.

A final contra o São Paulo. Pode parecer desprezo, mas não era. Eu juro. Ficamos mais tranquilos. Não só pelo nosso retrospecto positivo. O Corinthians jogaria as duas partidas em casa. Também não é jocosidade, naquele tempo jogar no Morumbi era efetivamente jogar em casa. No mais, quem comprasse mais ingresso mais espaço no estádio tinha. Então, para nós, tudo parecia mais dentro da nossa realidade. Só que o SPFC tinha um timaço. Já era o Telê Santana com a base do time que ganhou tudo no São Paulo.

Nosso time era mais modesto. Depois que eliminamos o Bahia sabíamos que seria rápido. Pro bem ou para o mal. Seria já na quarta-feira próxima e domingo. Os corinthianos se olharam nos olhos e disseram: “quer saber? Agora é cum nois!.

E de fato o Corinthians entrou gigantesco nos dois jogos. No primeiro poderia ter ganho até com um placar melhor. Mas a gente sabe que na vida da gente nada é fácil. Foi no 1x0 mesmo. Neto bateu a falta, Wilson Mano entrou na área e bateu com o joelho. Sim, o time do São Paulo que era o fino da bola não tinha como vencer o Corinthians. Foi com gol de joelho, porque assim é que funciona esse esporte. Fomos de gol feio. Um gol lindo, pois a iluminação do estádio refletia naquela camisa histórica preta com listras brancas. Ah, como te amamos, Corinthians. Os fogos estouravam. Estava chegando o grande momento.

Os corinthianos se abraçavam nas ruas. Além do sorriso, víamos no olhar a felicidade de cada um. Era tudo muito especial.

Eu me agarrei ao meu pai. Nessa idade de 14 anos, os meninos querem mostrar que já são homenzinhos. Já escondem algumas de suas emoções. Precisam conviver com as agressividades que se apresentam no mundo masculino. Você não é mais criança, mas também não é adulto. Não sobrava muita coisa para mim além do Corinthians. Nem que existissem outras coisas, eu não queria. Não haviam tantas distrações eletrônicas. O Corinthians era simplesmente tudo. E a mistura de nervosismo e esperança era pesada demais para mim àquela altura da vida. Ah, eu não aguentava mais. Grudei no meu pai como quem precisava de proteção. Não, pai. Eu não sou adulto ainda. Não estou preparado para quase nada. Preciso do senhor. A mesma sensação eu tive no mesmo dia 16 de dezembro, mas vinte e dois anos depois. No intervalo do jogo contra o Chelsea na final do mundial. Eu estava sentado no estádio em Yokohama e senti muita falta do meu pai. Queria ligar para ele, mas não consegui. Queria que ele pudesse me ajudar. Meu coração estava aflito.

Foi difícil o primeiro tempo do jogo. Mas, tal qual no Japão, quando chegamos para o segundo-tempo sabíamos que a verdade se revelaria. O Corinthians se faria Corinthians. Havia chegado a nossa hora. Neto tocou a bola para Fabinho. Ele costurou na intermediária e mandou para Tupãzinho. Tupã era leve, arisco. Havia chegado um ano antes vindo do São Bento de Sorocaba. Era um talismã. Um amuleto da sorte. Sabíamos que com o Tupã em campo as coisas se encaminhavam. Quantos jogos na arquibancada eu via a torcida se abraçar quando o Tupãzinho era chamado para o gramado. Em 90 era titular absoluto. Jogava muito. Tupã para Fabinho. Fabinho para Tupãzinho. Estamos na grande área. Vai Corinthians. Segurei a mão do meu pai. Meu pai se levantou do sofá. Só dizia “vai, vai, vai”. Tupã coloca a bola no meio das canetas do zagueiro Ivan. Nossa! Bola para o Fabinho. Faz Fabinho! O chute saiu mascado, a bola está solta na pequena área. Tupã dá um carrinho. A bola entrou. Não tem mais volta. É goooooool!!! Ah, é gooooool !!!! Meu pai me abraça. Chorei como criança!

O mundo parecia que ia cair.

Quando o jogo termina eu fiquei congelado, vendo aquela cena.

Meu pai disse para mim uma frase que eu nunca esqueci: “você pensa o quê? Eu também nunca vi essa cena na minha vida”.

Hoje eu penso, que tirando o gol do Basílio em 77 e o título de 79, todos os outros campeonatos que meu pai assistiu, eu também pude assistir. A vida dele como corinthiano sempre foi mais sofrida.

O campeonato de 1990 tem um papel histórico. Ele ensina o Corinthians a acreditar mais em si mesmo. A jogar em qualquer lugar.

Se hoje o Corinthians é um time mais confiante. Se vencemos tantos campeonatos, devemos muito à superação desse time que venceu na raça. Um time praticamente inteirinho corinthiano. 1990 traz consigo todas as marcas do corinthianismo.

Veja mais em: Títulos do Corinthians e História do Corinthians.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.

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Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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