A República do Parque São Jorge

Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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A República do Parque São Jorge

Eleições estão marcadas para o dia 3 de fevereiro no Parque São Jorge

Foto: Danilo Augusto / Meu Timão

A campanha eleitoral está a todo vapor no Parque São Jorge. Dessa vez teremos um número maior de candidaturas disputando a presidência. Outra novidade é que para a eleição do conselho haverá mais de uma dezena de “chapinhas” com vinte e cinco candidatos cada uma, disputando duzentas vagas para conselheiros. Ou seja, elegem-se as oito “chapinhas” mais votadas nas eleições.

O ponto positivo do novo formato de eleição dos conselheiros é a promessa do fim do “dedaço” na escolha dos candidatos, favorecendo a formação de múltiplas chapas onde, em tese, todos os sócios elegíveis do clube podem se candidatar. No entanto, a percepção que se tem ao caminhar pelas alamedas do Parque é que quase todo mundo será candidato em alguma chapa. A tendência inevitável é que as pessoas votem em si mesmas. A disputa ferrenha promete ser pelo voto dos sócios que normalmente não frequentam o clube e não se inscreveram em nenhuma das chapas para o conselho.

Ao contrário do que alguns acreditam, o ambiente político agitado não faz mal para o Corinthians, ao contrário. O clube ainda cura as feridas da Ditadura Dualib, quando passamos décadas sem eleições diretas para presidente, com reeleições repetidas e subsequentes de um presidente que não tinha dignidade nem envergadura para liderar o Sport Club Corinthians Paulista. O conselho que o elegia era escolhido a dedo e, durante muito tempo, foram pouquíssimas as vozes que se levantaram contra os absurdos que ocorriam no cotidiano do clube.

Recordo-me quando a secretaria do clube passou a não admitir novos sócios patrimoniais, permitindo somente a inscrição e pagamento para usufruto das instalações do clube social. A tentativa era de evitar que corinthianos interessados na transformação do clube se tornassem sócios e viessem a desequilibrar as forças já estabelecidas. O Corinthians quase morreu. Quem não reconhece a passagem de Dualib pelo Corinthians como uma ditadura detestável, com consequências históricas graves, não deveria merecer o voto e nem o apoio de nenhum corinthiano preocupado com os destinos do clube.

Desse modo, o fato das campanhas para presidente e novos conselheiros estarem pegando fogo, não pode ser considerada notícia ruim. Democracia nunca é demais.

Melhor mesmo seria se o Corinthians tivesse um número de associados, e por consequência, um número de eleitores equivalente ao seu tamanho. O número de torcedores do Corinthians em todo Brasil se comparado com o número de associados aptos a votar nas próximas eleições, faz do Corinthians um clube gigante dos muros para fora do Parque São Jorge e um clube pequeno dos muros para dentro.

Dentro do clube, prevalecem os principais vícios históricos da sociedade brasileira. É um microcosmo de tudo que acontece no país. Uma reprodução da nossa tragédia social. No Corinthians estão presentes até os dias de hoje o coronelismo, ou seja, a figura do chefe centralizador que se faz dono de tudo e de todos, sendo senhor das decisões, tendo sua autoridade e sua personalidade constrangendo as instituições reguladoras da vida política e social do clube. O clientelismo, ou seja, a troca de favores entre os eleitos e os eleitores. Uma estrutura social baseada na formação de uma clientela, ao mesmo tempo dependente e interessada nos favores tentadores que um clube como o Corinthians pode proporcionar. Também prevalece o patrimonialismo, ou seja, a absoluta indistinção do que é o público (de todos os associados) e o que é o privado. Existe uma confusão permanente entre o que é interesse pessoal e o que pertence ao interesse coletivo. No Corinthians, na maioria das vezes, as ligações pessoais, as afinidades, os sentimentos de dívida interpessoal e o apadrinhamento se tornam mais importantes do que os projetos políticos e os programas estratégicos de gestão.

Nos últimos 74 anos (atenção, eu disse setenta e quatro), o Sport Club Corinthians Paulista teve apenas cinco “chefes políticos” que, exercendo ou não os cargos majoritários, exerceram o poder político de fato. São eles: Alfredo Ignácio Trindade, Vicente Matheus, Wadih Helu, Alberto Dualib e Andrés Sanchez. Antes da chegada de Alfredo Ignácio Trindade em 1943, o Corinthians teve outros 18 presidentes (desconsiderando os interinos) que se alternaram nos primeiros 33 anos de história do Corinthians. Depois disso (também desconsiderando os presidentes interinos), tivemos apenas 12 presidentes em 74 anos. Só pra reforçar, 18 presidentes nos primeiros 33 anos e 12 presidentes nos últimos 74 anos.

Vale dizer que tivemos gestões como as de Waldemar Pires (1981 a 1985) que de alguma forma destoaram à lógica do ordenamento dos grandes chefes políticos, mas isso se deu muito mais como uma insurgência frente ao seu padrinho político (Vicente Matheus) e uma desobediência de quem havia sido eleito para ser uma espécie de “Rainha da Inglaterra”. Certamente, sem essa desobediência, jamais teria sido possível surgir um movimento como a Democracia Corinthiana.

Após a redemocratização do Corinthians, tivemos três presidentes legitimamente eleitos que, verdade seja dita, não viraram a mesa evitando eleições. É bem verdade que os dois últimos presidentes governaram com maior ou menor nível de independência, mas exerceram de fato o cargo de presidente. Conviveram com a influência política de Andrés Sanchez, muitas vezes maior e mais poderosa do que o próprio exercício litúrgico do cargo de presidente. Se para muitos as duas eleições diretas dos últimos anos não passam de um verniz institucional ainda insuficiente para consolidar a democracia no Corinthians, é preciso dizer também que, embora os desafios ainda sejam grandes, a realização de eleições regulares e com votação direta dos associados é sim uma grande conquista a ser preservada. Quando dizemos que tudo “é a mesma coisa”, corremos o risco de deixar de avançar e retroceder aos dias mais obscuros da história do clube. O Corinthians melhorou e muito depois da redemocratização.

Há muito a ser feito para consolidar a democracia no Corinthians? Sim, é claro.

É urgente ampliar o número de associados e de eleitores no Corinthians. Um clube com dezenas de milhões de torcedores não pode se contentar com cerca de quatro mil eleitores.
Políticas agressivas e arrojadas para a valorização do associado se fazem urgentes. Trataremos com atenção esses pontos nos próximos textos. Por hora é possível dizer que talvez a solução não seja fazer o Fiel Torcedor votar, mas oferecer ao associado do Corinthians os mesmos direitos do Fiel Torcedor. Assim, o corinthiano poderia optar ao invés de pagar uma anuidade para uma empresa prestadora de serviços, ser desde já um sócio do clube e conquistar o maior orgulho que o um Corinthiano pode ter que é de alcançar a cidadania corinthiana. Ser parte integrante e viva do Corinthians e participar ativamente de suas escolhas e de seu destino.

Para isso, o título do Corinthians não pode ser algo caro. Nem a sua manutenção. O Corinthians sempre foi um clube popular e assim somos felizes.

Também, o papel do conselheiro tem que ser mais ativo, fiscalizador e moderador. Participar decisivamente das decisões e ter conhecimento efetivo sobre todas as questões estratégicas da vida e do futuro do Corinthians.

Como disse nosso primeiro presidente Miguel Bataglia, o Corinthians será o time do povo e será o povo que irá fazer o Corinthians.

Seremos efetivamente uma democracia quando um menino corinthiano, independente de sua classe social, possa sonhar, se preparar e efetivamente ter a chance de um dia ser Presidente do Corinthians com instituições sólidas e justas.

Veja mais em: Eleições no Corinthians.

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Por Rafael Castilho

Rafael Castilho é sociólogo, especializado em Política e Relações Internacionais e coordenador do NECO - Núcleo de Estudos do Corinthians

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