O esperado fim de um grito infame

Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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O esperado fim de um grito infame

Corinthians foi um dos primeiros a inscrever jogadores negros. Na foto, Asdrúbal da Cunha, o Bingo

Foto: Reprodução.

Se você, meu amigo, escolheu o Corinthians pelo distintivo ou pela cor da camisa, eu lamento, mas você não entendeu nada.

O Corinthians é mais do que isso - um estado de espírito, como dizia o Doutor. É o acolhimento, é a solidariedade. Já foi fundado com vocação universal, como já andei dizendo. Nasceu de um grupo de trabalhadores excluídos do futebol elitista de outros tempos e foi conquistando entusiastas por onde passava, mas não por conta do seu uniforme bege e surrado. A adesão ao Corinthians se explica porque ele sempre esteve aberto a todo aquele que quisesse um time para chamar de seu. É esse o seu maior encanto.

Por nunca ter sido o time só dos brancos, o Corinthians tinha, lá atrás, sua torcida chamada de "pretalhada" pelos arquirrivais. Se hoje a alcunha histórica é motivo de orgulho em uma sociedade um pouco menos discriminatória do que a de um século atrás, naquela época, garanto que nem todos percebiam espontaneamente o valor de estar associado a um grupo socialmente marginalizado.

Desde sempre, temos sido reconhecidos como o time dos desdentados, o time dos analfabetos e marginalizados. E somos mesmo. Nossa abrangência é o que nos faz maiores. O Corinthians campeão dá mais festa porque é o triunfo dos carroceiros. Ao mesmo tempo, incomoda os adversários muito além do que qualquer outro clube, porque desconcerta aqueles que vivem escravos de uma posição de superioridade.

Uma ação social promovida há poucas semanas pelo clube mostrou como os imigrantes mais recentes não demoraram a se incorporar no mar de todas as águas que é a nossa torcida. É a prova de que não perdemos totalmente a nossa essência.

Falo tudo isso para lembrar que existe ainda hoje no futebol pelo menos uma discriminação repugnante. Todos nós sabemos, há até quem ache graça. Só que não há piada que justifique um preconceito. Nem tudo se permite em nome do humor. Em 1920, por exemplo, podiam achar muito engraçado entoar gritos racistas dentro de um estádio de futebol. Hoje já se percebeu o quanto é ofensivo, mas a história de muitos clubes já está manchada para sempre por atitudes discriminatórias das suas torcidas no passado.

Para a nossa torcida, em especial, o grito de "bicha" não é só uma falta de sensibilidade para perceber que é o dever moral de qualquer ser humano desconfiar dos parâmetros do próprio tempo quando o assunto é discriminar o próximo por uma razão qualquer. É o esquecimento da nossa própria história e da nossa essência, que nos chamam exatamente a atropelar os preconceitos antes mesmo que o resto da sociedade se livre deles.

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Por Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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