Não vamos subverter o luto

Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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Não vamos subverter o luto

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Não vamos subverter o luto

A Pietà de Michelangelo - símbolo máximo da dor da perda

Foto: Wikicommons

"O homem que diz dou
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!

(...)
O homem que diz sou
Não é!
Porque quem é mesmo é
Não sou
!", cantavam os versos tristemente irônicos de Vinícius de Morais.

Não queria me pronunciar sobre a tragédia da Chapecoense, até porque, da minha parte, e concordo que é pessoal, prefiro expressar o meu respeito por meio do silêncio absoluto. Só que, no meios dessa grande comoção causada pelo desastre, sinto que talvez alguns sentimentos estejam se confundido. Sugiro então que reflitamos com franqueza sobre as nossas expectativas nessa hora.

Tenho lido sobre a possível repercussão de eventuais iniciativas do Corinthians - e de outros clubes - para homenagear a Chapecoense. "Se fizéssemos X, seria a mais linda homenagem!", "Se fizéssemos Y, seria histórico!", "Se fizéssemos Z, seria notícia no mundo todo!", tem quem se entusiasme com as ideias mais inusitadas. Há clubes disputando para ver quem joga com a camisa do clube catarinense na última rodada. E aí eu me pergunto: qual a importância disso? Será que o sentimento que nos move quando esperamos por algo assim é de fato solidariedade? Ou há uma parcela de vaidade no meio?

Quem já perdeu alguém sabe como nessa hora a sensibilidade se aguça. Qualquer gesto precipitado de alguém de fora pode soar muito mal antes de a poeira baixar. Ainda mais na era do marketing generalizado em que vivemos, qualquer atitude pública pode parecer oportunismo, uma tentativa precipitada de autopromoção. O momento é de pensar 80 vezes antes de se engajar publicamente em qualquer peripécia.

O momento demanda também solidariedade, mas uma solidariedade que seja discreta, desinteressada. Dispensemos os auto-falantes e as notas públicas. Não é o momento do Corinthians, não é o momento do futebol, não é o momento da Colômbia. As famílias das vítimas e os próprios sobreviventes que venham primeiro na nossa escala de preocupação.

O luto sincero demanda, antes de tudo, recato. É por ele que se manifesta o respeito máximo pelo sofrimento alheio.

Veja mais em: Acidente aéreo da Chapecoense.

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Por Roberto Piccelli

Roberto Piccelli é advogado atuante em direito público e escreve sobre temas jurídicos e institucionais relacionados ao Corinthians.

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