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'Virar a página'
Presidente do Conselho do Corinthians faz desabafo e diz: ‘A gente quer ser um Flamengo’
Por Felipe Sales, Matheus Pogiolli e Rodrigo Vessoni
Na tarde desta sexta-feira, Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo (CD) do Corinthians, concedeu entrevista coletiva no Teatro do Parque São Jorge, sede social do clube, e fez um longo desabafo.
Tuma falou por mais de uma hora, porém, antes mesmo de abrir espaço para perguntas, fez um pronunciamento de aproximadamente 30 minutos. Ao encerrar a coletiva, o presidente do CD destacou que está na hora de vira a página do clube, se referindo ao impeachment de Augusto Melo.
“O Corinthians precisa virar essa página (do impeachment de Augusto Melo), precisa renascer das cinzas, precisa funcionar. Renascer das cinzas. Sabe por quê? Quero voar com águia, águia voa com águia. A gente quer ser um Flamengo, e vamos ser”, explanou o presidente do CD.
Durante o encontro com a imprensa, o dirigente também respondeu a questionamentos dos jornalistas e abordou temas recentes envolvendo a diretoria alvinegra, como a assembleia geral para impeachment de Augusto Melo, os gastos com cartão corporativo e a reforma do estatuto.
Ainda no pronunciamento inicial, Tuma ressaltou a importância da comunicação direta com os torcedores e a imprensa, detalhou os preparativos para a assembleia geral do dia 9 de agosto, que definirá a destituição definitiva do presidente afastado, e destacou que a reforma estatutária é a prioridade absoluta de sua gestão.
O dirigente também citou a “tentativa de golpe institucional promovida por apoiadores do ex-presidente”, apontou avanços no combate ao cambismo e à má gestão do programa Fiel Torcedor, além de comentar os desdobramentos da investigação sobre contratos considerados irregulares. Por fim, tratou das denúncias envolvendo o uso de cartões corporativos, apontou que irá sugerir o fim do uso dessa modalidade de pagamento, e garantiu que todas as apurações estão sendo conduzidas com rigor e em conformidade com os trâmites legais previstos no estatuto do clube.
Confira trechos da entrevista de Romeu Tuma Júnior
Cartão corporativo
No início de seu pronunciamento, Romeu Tuma Júnior comentou sobre o uso do cartão corporativo do clube, dizendo que recomendará a extinção de sua utilização e recomendou uma nova modalidade de pagamento para os gastos necessários durante a operação do clube.
"Não me interessa o que acham, vou fazer o que tem de ser feito. As pessoas serão ouvidas, precisamos saber como funcionava o cartão. Vou recomendar ao presidente que extingua o cartão corporativo. O Ministério Público já me convocou e não tem previsão, não tem regra para o cartão corporativo. Ninguém sabe como funciona.
Você faz o relatório de despesas do clube e reembolsa o cara. Vou propor a extinção, mas quem toma a decisão é o presidente. Estou avisando que vou propor a extinção do cartão corporativo. No futebol, pague o hotel antes ou mande a fatura para o clube. O Cori pediu impeachment do ex-presidente porque ele não entregava documento. O assunto cartão corporativo é recorrente, não é de agora. Quando chega o meu cartão em casa e eu gasto muito, minha mulher briga comigo. No Corinthians, não tem ninguém que olha a fatura?
"Agradeço ao presidente (Osmar Stabile) entender qual é a sua função e qual é a função do estatuto do Corinthians. Nossa relação é institucional, de respeito. Com relação ao cartão corporativo, fizemos um ofício à presidência do clube pedindo para resguardar, coletar toda a documentação de extratos e documentos de suporte. Pedi que guardasse tudo dos últimos sete anos.
Fiz o ofício, alguns dias depois recebi resposta do departamento jurídico dizendo que alguns documentos foram furtados. Foi registrada ocorrência e estamos trabalhando. Alguns blogs que servem à milícia digital tem divulgado que não fazemos nada, alguns de vocês (jornalistas) são vítimas. Eu fui o maior opositor ao grupo Renovação & Transparência, mas sempre com respeito e diálogo", detalhou o presidente do CD.
Denúncias sobre o uso do cartão corporativo por Andrés Sanchez
O Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação criminal para apurar possíveis irregularidades no uso do cartão corporativo do Corinthians durante a gestão de Andrés Sanchez (2018-2020). As suspeitas incluem uso indevido de recursos do clube para despesas pessoais.
"O cartão corporativo não tem regulamentação, o estatuto não prevê isso. Para julgar, é preciso apurar direito, ouvir os responsáveis do financeiro e entender como era feito o uso. Se houve infração ao estatuto, o Conselho vai punir. Agora, fazer boletim de ocorrência sem ter certeza do crime? Isso não cabe ao Conselho Deliberativo. Apurar com responsabilidade é o que tem que ser feito", explicou Romeu.
Sanchez também enfrenta investigação da Comissão de Ética por utilizar o cartão corporativo para despesas pessoais no valor de R$ 15 mil em 2020. Apesar de ter reembolsado o valor, surgiram novos documentos que revelam outros gastos questionáveis durante sua gestão, como viagens para Fernando de Noronha e Espanha, aumentando a pressão por sua responsabilização.
Combate ao cambismo
Durante sua a entrevista coletiva, Tuma destacou sobre os impactos da biometria facial na Neo Química Arena e o combate ao cambismo. Segundo ele, mais de 8 mil ingressos que estavam sendo desviados irregularmente foram identificados e devolvidos ao sistema do Fiel Torcedor .
"Tinha um absurdo de distribuição de ingressos de uma forma equivocada, irregular e até ilegal. Eu tenho um resumo rápido para entender. Nós detectamos a distribuição irregular de 8.270 ingressos. Trabalho da comissão e da TI. Já detectamos. Simples assim. Havia cortesias em excesso, ingressos vendidos fora do sistema, entradas em camarotes sem contrato. É impossível distribuir isso tudo manualmente, então parte ia para uma rede de cambismo. O clube deixava de arrecadar até R$ 1 milhão por jogo.
Vou dar um exemplo aqui. Há menos nesse último jogo, contra o Palmeiras. Algumas cortesias foram cortadas. 1.040 ingressos que tinham sido excluídos do Fiel Torcedor. Só no login, 3.992, 4.000 ingressos. Outros ingressos em várias áreas, fora do Fiel Torcedor. 2.500. Fielzone a mais fora do contrato, 300. Distribuição de ingressos nos camarotes sem contrato, 500. Tudo fora do esquema, tudo sem receber.
Nós deixamos de arrecadar um milhão de reais, preço de face do ingresso. Imagina esses 7 mil ingressos que estariam alimentando a rede de cambismo, quanto esses caras estão ganhando, estavam ganhando. Faz assim, para fazer baratinho, bota 30% no valor de ingresso. Eu estava ganhando R$ 3 milhões por jogo.
Foram cadastradas até o momento mais de 250 mil biometrias faciais. E sem custo adicional para o clube. Dando uma economia da ordem de 350 mil reais só de cadastramento. Nós tivemos um índice de performance de falhas contra o último jogo contra o Palmeiras de apenas 70 torcedores, os 46 mil presentes na Neo Química Arena, frente a uma média nacional de até 5%. Isso evitou a redução da capacidade da Arena e praticamente eliminou cambistas no entorno. Agradecemos à PM, ao MP, ao juizado especial e a todos os envolvidos pela compreensão e apoio ao novo sistema.
Com o apoio da LigaTech e da equipe do presidente Osmar (Stabile), melhoramos a venda de ingressos para torcedores comuns e Fiéis. Problemas graves em contratos da gestão anterior foram identificados: multas abusivas, empresas sem permissão e ausência de compliance. Agora, com transparência e cooperação entre diretoria e Conselho, conseguimos renegociar acordos e proteger os interesses do Corinthians", disse Tuma.
Invasão de aliados de Augusto Melo
No mês de maio, um grupo de aliados do presidente afastado Augusto Melo invadiu o Parque São Jorge depois de entrarem com um processo na Justiça, na Vara Cível do Foro Regional VIII do Tatuapé, em São Paulo, para tentar validar o afastamento de Romeu Tuma Júnior. Maria Angela de Sousa Ocampos, primeira secretária do Conselho Deliberativo, se autodeclarou presidente do CD e tentou anular a votação que afastou Augusto Melo da presidência do clube .
Como resultado, a diretoria decidiu afastar temporariamente alguns conselheiros e membros da Comissão de Ética envolvidos no episódio, com o objetivo de garantir a imparcialidade nas investigações e preservar a governança do clube. Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo, comentou os desdobramentos da polêmica.
"A Comissão de Ética participou de um ato considerado como invasão ao tentar destituir o presidente interino do clube, o que gerou sérias consequências. Por conta da instabilidade, bancos negaram recursos ao Corinthians, já que não sabiam quem era, de fato, o presidente, o que prejudicou processos e paralisou cerca de 25 a 30 casos na Comissão de Ética. Com o afastamento do presidente da Comissão (Dunga), foi necessário convocar um suplente para dar andamento aos processos, inclusive os que envolvem conselheiros e associados que participaram do episódio. Agora, existem duas comissões atuando: uma focada na invasão e outra nos demais casos. A ideia é tocar todos os processos em paralelo, respeitando a cronologia e dando prioridade aos mais antigos", concluiu.




