Moro na França. Na realidade, os agricultores não querem a assinatura do acordo com o Mercosul, pois isso desestruturaria o setor agrícola secular. Entendo perfeitamente, pois a França, ao contrário da maioria dos países europeus, tem um setor agrícola muito forte, baseado em pequenas propriedades familiares, geralmente organizadas em cooperativas. Por isso, o produto alimentar é de excelente qualidade. Já o Mercosul privilegia a produção em quantidade, o que derrubará os preços por aqui, mas a qualidade também cairá.
Veja bem, não é uma crítica, é uma constatação: a segurança alimentar do mundo depende hoje em boa medida do Mercosul, pois, sem a produção em massa, não haveria produtos suficientes para alimentar a população mundial. Só o Brasil, isoladamente, produz alimentos para cerca de 1,2 bilhão de habitantes, ou 15% da população mundial. A Argentina, para outros 5%. Mas o preço de produção em massa é mais fertilizantes e agrotóxicos.
Concluindo: para a Europa como um todo, o acordo com o Mercosul significará segurança alimentar nas próximas décadas, mas para a França (que necessariamente precisa ratificar ou não o acordo), significa a possibilidade de destruição de um setor de alta qualidade e histórico.
E o governo Macron (liberal, de direita) está dificultando a vida dos agricultores, como a diminuição de subsídios (no caso do açúcar, chega a 50% do valor das gôndolas). Para exemplificar: o açúcar é geralmente de beterraba e com pouco uso de químicos no refino, mas com o fim do subsídio, se na gôndola o açúcar brasileiro estiver pela metade do valor, o cidadão vai passar a consumir o produto brasileiro.
Particularmente, minha visão sobre isso é que nem tudo na vida é dinheiro.
Eu não ratificaria o acordo. E para o Mercosul, não é necessário, perdeu-se o timing. Teria sido bom há 20 anos. Hoje, o que se produz vende-se para o Oriente Médio ou Ásia.