Especial categorias de base: os planos do Corinthians para criar identidade e revelar jogadores

Especial categorias de base: os planos do Corinthians para criar identidade e revelar jogadores

Malcom, Carlinhos, Arana, Pedrinho e Fabrício Oya: promessas reveladas pelo Corinthians

Malcom, Carlinhos, Arana, Pedrinho e Fabrício Oya: promessas reveladas pelo Corinthians

Foto: Montagem/Agência Corinthians

Desligamentos de profissionais, remanejamentos, polêmicas envolvendo contratação e venda de jogadores: é preciso oxigenar as categorias de base do Corinthians. Parte desse processo é tarefa de Fernando Yamada, 38 anos, ex-goleiro formado e campeão mundial pelo clube, desde 4 de abril gerente geral do departamento de formação de atletas do Timão.

Entre os maiores desafios de Yamada, que trocou a carreira de empresário para desenvolver uma nova identidade na base do Corinthians, está em reduzir custos sem deixar o nível técnico declinar. Mais do que isso, entregar ao elenco principal jogadores com condições reais de disputarem titularidade. Revelar.

“O objetivo principal da nossa gestão é entregar um jogador melhor para o profissional. Ganhar títulos, o Corinthians vai continuar ganhando, vai sempre brigar pelas primeiras posições. A marca é muito forte, a captação se faz por si só, só que os processos não estão muito alinhados aqui”, admite.

Em entrevista exclusiva ao Meu Timão, Fernando revelou as principais missões à frente do departamento, como a criação de uma cartilha a fim de dar identidade às equipes de base, a necessidade de encerrar contratos de atletas sem projeção para o time profissional e a intenção de levar as categorias em definitivo ao centro de treinamento da base, localizado ao lado do CT Joaquim Grava, até o fim da temporada. “Será um divisor de águas”, sonha.

Yamada também explicou a demissão repentina de Pepinho Macia, ex-técnico do Sub-20, e o declínio do Corinthians, por falta de dinheiro, ao convite para jogar o Mundial Sub-17, em agosto, na Espanha. Por fim, traçou o futuro da base alvinegra a curto prazo, considerando a aproximação da eleição presidencial, marcada para fevereiro de 2018.

“Eu vou continuar fazendo meu trabalho, porque o futebol não deveria ter ligação com a política. Vou fazer meu trabalho só pensando na melhoria do departamento de futebol amador. Se o próximo presidente entender que estamos fazemos um trabalho satisfatório, acho que é conveniente dar continuidade”, opina.

Fernando Yamada atendeu à reportagem em sua sala, no Parque São Jorge

Fernando Yamada atendeu à reportagem em sua sala, no Parque São Jorge

Larissa Lima/Meu Timão

Leia a entrevista na íntegra de Fernando Yamada ao Meu Timão

Meu Timão: Gostaria que você fizesse uma avaliação desses três primeiros meses de trabalho à frente do departamento de base.

Fernando Yamada: Na verdade, quando eu recebi o convite pelos nossos diretores, o Nei Nujud (diretor) e o Jaça (Jacinto Antônio Ribeiro, diretor adjunto), o nosso desafio naquele primeiro momento era resgatar um pouquinho da imagem do departamento amador, trazer um pouco da credibilidade do mercado e, junto com a credibilidade, a gente voltar às origens. A minha geração formou muitos jogadores, não só ganhou títulos, mas talvez seja a geração do clube que mais formou atletas para o profissional. Se você olhar a minha geração, do goleiro ao ponta-esquerda, todo mundo jogou no profissional, uns um pouco mais, outros um pouco menos, porque também tem aquela relação da carência na posição.

No segundo momento vem a questão financeira, enxugar a folha de pagamento, estava um pouquinho inchada, e coincidiu com o momento do clube, momento do país, um momento difícil. Faria todo sentido a gente enxugar um pouquinho, e aí entrei em cena para a gente tentar detectar os profissionais que estavam ociosos na base, jogadores nas equipes B que não têm projeção nas equipes A, muitos menos de um dia performar na equipe principal. Meu primeiro mês foi mais ou menos isso, eu detectar o perfil dos profissionais que estavam atuando na base e remanejar alguns que tinham bom perfil para trabalhar na base e outros que não tinham perfil. A gente teria que desligar, nesse processo de enxugar as comissões técnicas. Quando desfez a parceria com o Flamengo de Guarulhos-SP, unificou, obviamente alguns profissionais estavam defasados, isso era fato. Eu cheguei à conclusão de que realmente teria uma redução financeira com essa mudança no quadro de funcionários, porém a maior mudança viria com a extinção das equipes B, principalmente a da categoria Sub-20. Na minha visão, a categoria Sub-20 é praticamente profissional, é peça de reposição para a equipe principal, e o Sub-20 B não estava fazendo sentido, jogadores que não têm projeção para jogar no Sub-20 A, com contratos longos, com salários altos, então entendi que ali era um ponto que nós tínhamos que atacar naquele momento.

Então, o maior desafio que vocês encontraram aqui foi ligado à questão financeira?

Não é que o Corinthians está gastando muito na categoria de base, isso não é verdade. Os grandes clubes gastam mais ou menos a mesma coisa. Agora, é onde você está gastando o dinheiro. Eu tenho visto um déficit em alguns departamentos, departamento de captação do Corinthians hoje é o mais deficitário, tem poucos profissionais. Tecnologia, parte de preparação física... Nós não temos uma academia à altura da equipe do Corinthians, com estrutura para fazer um trabalho específico para nossos atletas. Por outro lado, você tinha na equipe B uma folha salarial alta, então entendi que precisava direcionar esses recursos para o canal correto, ele estava sendo despejado em um terreno que não ia dar muito fruto. Realmente, você vai reduzir pouco a médio prazo, mas o principal desafio é remanejar, é colocar o recurso financeiro onde realmente precisa. Dando um ambiente favorável ao atleta, você vai otimizar o potencial dele e, quando chegar ao Sub-20, vai estar mais preparado para jogar na equipe principal.

O objetivo principal da nossa gestão é entregar um jogador melhor para o profissional. Ganhar títulos, o Corinthians vai continuar ganhando, vai sempre brigar pelas primeiras posições. A marca é muito forte, a captação se faz por si só, só que os processos não estão muito alinhados aqui. Aí que veio a minha ideia de eleger um coordenador para cada departamento, porque eu estava enxergando que no Sub-13 a comissão técnica fazia um tipo de trabalho, no Sub-15 o profissional já tinha outra formação, outra ideia de futebol, outra cultura e já faia um trabalho diferente. No Sub-17 a mesma coisa. Quando o atleta pisava no Sub-20, estava totalmente desequilibrado, com vários tipos de informações diferentes das outras e era vítima do processo. É isso que não podemos deixar acontecer. Com essa ideia de eleger um coordenador para cada função, o que o Sub-11 vai fazer hoje, estará debaixo do guarda-chuva dos coordenadores, e aí você começa a alinhar os processos, começa a fazer sentido. É um processo que começa no Sub-11, no Sub-13, e vai refletir no Sub-20.

No final, eu quero que quando o jogador chegue no Sub-20, quero ele pronto para jogar no profissional. Os quesitos técnicos, comportamentais, físicos, eles têm que estar alinhados. “O copo tem que estar cheio”, eu costumo dizer, porque ali já é peça de reposição. Esse é o nosso desafio e a minha maior preocupação na base, não é só ganhar títulos. Obviamente que no Sub-20 o nível de exigência é grande, título faz parte do processo, o jogador tem que ter aquele gosto da vitória, não tenha dúvida, mas do Sub-17 para baixo temos que rever alguns processos, porque não adianta nada o jogador ser campeão de tudo e não ter condição de ser profissional do Corinthians quando chegar ao Sub-20.

Você citou o projeto dos coordenadores. Isso já está implementado?

Nós contratamos o Leandro Idalino para ser o treinador de goleiros do Sub-20 e o coordenador de todos os treinadores de goleiro. Como eu entendo que o processo é de cima para baixo, o profissional tem que estar no mínimo na categoria Sub-20, é o caso do treinador de goleiro. Na parte da preparação física, o Flávio Grava, ele é preparador físico do profissional e fiz o convite para que ele fosse o coordenador da preparação física. Nos outros departamentos a mesma coisa, no departamento de análise e desempenho nós temos o Gabriel (Magalhães), no departamento de captação o Alysson (Martins), esses processos já existiam nesses departamentos. Só não existiam na parte técnica, na parte de campo, e foi o que nós fizemos no primeiro momento.

Você começa a pensar na ideia de confeccionar um livro metodológico, um livro que precisa ter dois anos de validade, porque o futebol constantemente é atualizado. Dois conceitos: um é a parte técnica, os princípios de jogo. Não é que a categoria de base vai ter o mesmo esquema tático do profissional, não é nada disso. Vai ter a mesma identidade dentro dos momentos de jogo, defesa, ataque, transição defensiva, transição ofensiva, o Corinthians terá a mesma identidade em todas as categorias, os mesmos alicerces. O Corinthians sempre vai propor o jogo, nunca vai jogar na retranca, pode jogar em uma circunstância ou outra, mas, de um modo geral, o Corinthians vai propor o jogo. Vamos ter uma identidade na base, criar um mecanismo para propor o jogo. Saída com a bola, nunca vai rifar a bola, vai tentar um jogo construído, um jogo apoiado, que é uma tendência mundial. Ultrapassagem, comportamento do jogador... Hoje o profissional está dando uma grande lição em relação ao comportamento, à atitude, então aqui na base nós estamos fazendo também esse procedimento, de você pegar imagens dos atletas do profissional e trazê-las para a nossa realidade, comparar com um jogador da mesma posição, qual altitude eles estão tendo lá. Serão os princípios das categorias de base para que, quando você estiver na arquibancada olhando um jogo da base no Corinthians, independente da camisa, você já vai identificar: essa aqui é a equipe do Corinthians só pelo comportamento dos atletas.

O outro aspecto é a metodologia de trabalho, a nossa dinâmica no dia a dia, onde nós vamos eleger os coordenadores, rodízio de capitania, palestras sobre vários aspectos. Já tivemos duas até o momento, sobre arbitragem e doping. Esse mês será sobre comportamento do atleta vencedor, fiz um convite para o Mauro Silva (ex-jogador e campeão do mundo em 1994) compartilhar um pouquinho da história de carreira dele. O Fábio Carille também vai nos trazer uma palestra mostrando justamente o comportamento dos atletas dentro de campo. E depois vamos entrar nos aspectos técnicos e táticos, onde nossas comissões técnicas irão eleger um profissional. Esse processo será durante todo o ano, quinzenalmente, porque queremos fazer uma espécie de academia, e entendo que quanto mais o jogador ficar aqui no clube, melhor é para acelerar o processo dele de formação como atleta do Corinthians. Ficar aqui só duas, três horas por dia é muito pouco. Vamos tentar segurar o atleta o máximo possível para que ele receba informação positiva.

Todo jogador que está sendo contratado hoje, está sendo montada uma apresentação, ele fazer um tour no Museu e uma apresentação da categoria de base, mostrando o ambiente de Copa São Paulo, os títulos que o Corinthians ganhou, para que eles entendam qual é o perfil de jogador que o Corinthians busca, qual a expectativa que o torcedor tem quando senta na arquibancada ou quando o profissional solicita um atleta da base, qual é a expectativa que eles encontram... É tentar fazer com que o jogador entenda o perfil ideal para jogar no Corinthians.

Pepinho, ex-comandante do Sub-20, e Dyego Coelho, seu sucessor

Pepinho, ex-comandante do Sub-20, e Dyego Coelho, seu sucessor

Divulgação

Você citou a intenção de as categorias terem uma identidade. Talvez seja por isso que o Pepinho ficou tão pouco tempo no clube?

Nós entendemos que ele não tem o perfil para trabalhar no Corinthians. Os profissionais que irão trabalhar hoje no Corinthians serão contratados pelo perfil. No caso do Pepinho, o Osmar Loss (ex-técnico do Sub-20, atualmente auxiliar de Carille) já vinha de uma trajetória vencedora, tinha dado resultado. O perfil de gestão do Pepinho era oposto, então entendemos que ele não tinha o perfil ideal para trabalhar no Corinthians, essa foi a conclusão a que nós chegamos independente de resultado. Nós iniciaríamos um processo com ele, mas já tínhamos detectado isso. Ganhar ou perder é circunstancial.

Nota da redação: No início de maio, apenas 36 dias depois de ser contratado, Pepinho Macia foi demitido do cargo de técnico do Sub-20. Dyego Coelho, então, foi promovido a treinador da divisão pela segunda vez.

A decisão de não participar do Mundial Sub-17, que veio à tona há cerca de um mês, não foi um passo atrás?

Não é verdade que nós abrimos mão do campeonato. Na verdade, no ano anterior, o Corinthians ficou em último colocado, e os organizadores não nos convidaram, convidaram o Palmeiras. O regulamento permitia um clube de cada país. Eu entrei no circuito, nossa diretoria entendia que era uma competição importante, fui tentar, já com o processo andando, pleitear uma vaga. Depois de um mês recebi o retorno de que eles abririam uma vaga para o Brasil, porém teria que arcar com todas as despesas do evento, diferentemente dos outros anos. Quando o Corinthians era convidado, nunca arcou com nada, não tinha despesas, eram de responsabilidade do evento. Esse ano foi diferente, quem não vai arcar com todas as despesas é o Palmeiras.

A diretoria chegou ao consenso que não era o melhor momento você investir dinheiro para uma competição, entendemos que aquele recurso seria melhor investido na estrutura, que é o que estamos fazendo hoje, confeccionando uma academia para a categoria de base. O Corinthians não tem uma academia para a categoria de base, tem um ou outro aparelho, mas totalmente fora do nível de exigência do Corinthians. Aquele recurso que nós iríamos disponibilizar para um torneio, resolvemos disponibilizar para estruturar o departamento, seria mais conveniente. Obviamente, a gente ficou muito sentido porque é um campeonato muito interessante, é um campeonato que eu tenho interesse. Essas competições internacionais, essas fazem sentido. Essas aqui no Brasil, eu tenho tido muita cautela para aceitar os convites, porque grande parte delas é para promover a cidade, o organizador, eles são os beneficiados. Os grandes clubes, muito pouco, não consigo ver com bons olhos essas competições paralelas que ocorrem durante o ano. Agora, competições internacionais são um ótimo cenário para troca de experiências, intercâmbio, comparar nosso futebol com o futebol mundial, aí faz todo o sentido.

NR: No fim de maio, o Corinthians anunciou, por meio de nota oficial, que não participará do Mundial Sub-17, que terá início na segunda quinzena de agosto, na Espanha. Os custos estimados para a viagem são de R$ 200 mil, montante que o clube optou por não arcar.

Dos 34 jogadores que compõem o elenco profissional, 15 foram revelados na base. Estamos falando de quase metade de um grupo formado por pratas casa. Existe uma meta nesse sentido?

O nosso sonho de consumo, não sei se um dia vai se tornar real – acredito que sim –, se você conseguir fazer 60%, 70% da equipe principal só de atletas formados na base, acho que faz todo sentido. São jogadores que têm mais identidade, que estão acostumados com a pressão, estão num ambiente favorável porque já conhecem todos os profissionais, o grupo de estafe... Esse seria o melhor cenário. Jogadores não só compondo elenco, mas titulares, brigando realmente por espaço. É o que eu volto a dizer, se o departamento de formação conseguir no final do ano enviar para o departamento profissional quatro, cinco atletas com condições reais de brigarem pela titularidade, aí já faz sentido, o departamento de base tem boa parte dos seus objetivos alcançada, que é entregar jogadores com condições reais de jogo, de chegarem ao profissional, participarem da pré-temporada e já iniciarem com possibilidade real de serem titulares, não só jogadores subirem na necessidade, ou da carência da posição. Quantidade, o cenário ideal seria esse, você ter 70/30: o profissional só vai contratar pontualmente, na necessidade, trazer um ou outro jogador mais experiente para dar o alicerce para os mais jovens, um jogador experiente em cada setor do campo.

Malcom, principal revelação do clube nos últimos anos, sendo orientado por Carille

Malcom, principal revelação do clube nos últimos anos, sendo orientado por Carille

Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Durante mais de dois anos, o Alessandro, hoje gerente de futebol, era quem fazia essa relação entre base e profissional, como coordenador. Hoje, como é essa integração com a comissão do Carille? Quem é que faz essa ligação?

Hoje está muito legal isso, até foi uma das estratégias da diretoria na minha contratação. Eu joguei aqui com o Fábio Carille em 1996, então eu tenho uma relação muito boa com ele. Com o Alessandro a mesma coisa, joguei com ele em Seleção Brasileira de base, então eu tenho uma relação muito boa pessoal, inclusive. Por isso, esse processo está muito mais fácil de acontecer. Todas as decisões que eu vou tomar na base, eu consulto o departamento profissional. O Carille tem me ajudado na confecção desse livro metodológico, a sintonia tem sido muito legal. O que aconteceu no Corinthians entre outras épocas, até no meu tempo como atleta, é que os departamentos não se falavam, pareciam clubes distintos e isso era muito grave, um prejuízo muito grande para os jogadores que estavam surgindo. Já hoje, por exemplo, se eu vou renovar o contrato de um atleta no Sub-20, eu consulto o Alessandro e o Carille. Quando eu estou contratando alguém para o Sub-20, eu também os consulto, senão não faz sentido. Até para outros processos, como a preparação física, temos usado muito a estrutura do profissional. Essa interação tem sido muito legal, o discurso tem sido o mesmo, bem alinhado. O Corinthians só tem a ganhar com isso, porque, na verdade, estamos acelerando o processo, para quando o jogador chegar lá, chegar com maior condição.

Pedrinho em ação na vitória sobre o Botafogo, no último domingo

Pedrinho em ação na vitória sobre o Botafogo, no último domingo

Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

Vou te dar um exemplo claro e atual: o Pedrinho é unanimidade, todo mundo reconhece o talento que ele tem, só que hoje ele não pode atuar por conta do déficit físico que ele tem, isso é fato. A gente tem trabalhado para evitar que isso aconteça com outros garotos, tentar acelerar o processo já na base. Se for preciso um trabalho de força, vai ser feito na base e não só quando chegar ao profissional, porque você corre o risco de perder o timing. No profissional é tudo muito rápido, é para ontem, o jogador pode perder o timing. Aí o Corinthians precisa ir no mercado contratar para a posição, porque ele precisa do resultado imediato, e o jogador está ali, guardado em um laboratório para ganhar força, para ter a condição ideal para jogador no nível que o profissional exige. É esse tipo de situação que não queremos mais.

Sabemos que alguns treinos já são realizados no CT da base. Como está o andamento das obras? Há perspectiva de quando as categorias de base serão levadas para lá em definitivo?

Isso aí é o nosso sonho de consumo. Vai ser um divisor de águas, assim como foi no profissional. Assim que o time principal saiu do Parque São Jorge e foi para o CT ele deu um salto de qualidade gigante. Essa é a nossa ideia. Hoje nós já usamos os campos, estão em ótimas condições, do mesmo nível do profissional, porém falta a construção do administrativo, prédios, enfim. Temos pedido muito isso, porque ia melhorar a condição de trabalho de todo mundo, dos atletas, que iriam estar em um ambiente muito mais favorável, com uma estrutura melhor de trabalho, a interação com o profissional, que ia estar a um muro da base, então a comunicação seria muito mais rápida... A questão de otimizar nosso trabalho administrativo, porque aqui, infelizmente, temos muita interferência, mal ou bem estamos dentro do clube social, tornando inevitável o trânsito de pessoas dentro do departamento. No momento que formos para lá, poderemos blindar isso e otimizar o tempo dos profissionais. Eu, por exemplo, entendo que meu trabalho é 50% técnico e 50% administrativo, e às vezes eu não consigo acompanhar os treinos in loco. Por isso tudo, não tenho dúvidas que quando isso acontecer, espero que ainda neste ano, vai ser um divisor de águas e um enorme salto de qualidade. Não tenho dúvida nenhuma que vai revelar muito mais jogadores do que nos últimos anos.

Você falou da proximidade com o clube social, do trânsito de pessoas, e ouvimos com frequência histórias de indicação de jogadores por conselheiros, alguns escândalos na base... O Corinthians tem se protegido mais nesse sentido?

A indicação de atleta não tem problema nenhum, principalmente da categoria Sub-17 para baixo. O Corinthians, na base, não pode se dar ao luxo de fechar porta. A captação é durante todo o ano, diferente do profissional. Você tem que deixar a porta aberta durante o ano todo, independente de quem tenha indicado. Eu não posso recusar os atletas que estão sendo oferecidos porque hoje nós ainda não temos a condição de ter material de todos os jogadores. Eu não consigo ver imagens de atleta do Sub-15 e Sub-17, são poucas. O que eu tenho, às vezes, é um vídeo dos melhores momentos. Então, eu tenho que ter muita cautela em relação a isso, tenho que absorver as indicações, independente de quem seja. Agora, a melhor forma de ter uma boa relação com essas pessoas é a sinceridade. Hoje temos aqui o Sub-15 B e o Sub-17 B como pontos de captação também, para absorver esses atletas indicados. A partir daí, ele tem condição de ficar uma semana, dez dias ali treinando, sendo avaliado. Se ele performar nesse processo, ele é promovido à equipe A, senão ele é desligado e daqui a pouco está chegando outro. O que eu tenho sugerido para os meus diretores: para fazer sentido esses times de captação, é isso, jogadores que estão no primeiro ano da categoria e que são indicados para observarmos in loco. Se eu não fizer isso, eu vou inchar as equipes A e vou perder qualidade de trabalho.

Quando confeccionamos o livro metodológico, elegemos o número ideal para cada categoria. Então, Sub-11 e Sub-13, o ideal são 50 atletas, porque são a base da pirâmide. Quando você chega ao Sub-15, você começa a reduzir, são 30 de linha e quatro goleiros. No Sub-17, cai para 26 de linha, e no Sub-20, 24 jogadores de linha. Então você vai afunilando porque quando você chegar no profissional, não tem jeito, é uma realidade, dos 28 atletas que temos hoje, não serão todos que vão subir. E eu te digo, envolve custo. Cada atleta hoje da base tem um custo operacional de mais de R$ 5 mil por mês. Por isso, não faz sentido eu ficar postergando uma decisão que eu já sei qual vai ser.

Seguindo sua linha, quantos jogadores o Corinthians vai se desfazer?

Eu me reuni com o Sub-20 B e alertei os atletas de que, daqui dois meses, vamos divulgar a lista das inscrições para a Copa São Paulo de 2018. Eu alertei os atletas: “Gente, sei que o Corinthians é legal, vocês estão em um ambiente bom, tem uma boa estrutura, mas vocês têm que pensar na carreira de vocês! O Coelho já tem desenhado o elenco que ele vai contar para a Copinha. Vocês já não estão jogando esse ano, se chegar a Copa São Paulo e vocês não jogarem, vão acabar ficando cada vez mais longe do sonho do profissional. Então, eu sugiro que comecem a buscar outro caminho”. É a realidade, acho que esse é o melhor caminho, ser sincero.

No Sub-20 B nós estávamos com 26 atletas. De dez dias para cá, já estou fazendo a rescisão de dez. Porque não faz sentido, eles não vão disputar competição, só vão ficar treinando, aí já é um problema. No Sub-20, o jogador já é praticamente profissional, para ele ficar o ano inteiro sem jogar, não vale. Já fizemos a experiência de levar gente do B para o A. Alguns performaram e estão no A, os outros voltaram para o B e não serão promovidos, ficando ociosos, desmotivados, não faz sentido! Ou o jogador tem projeção para jogar no Corinthians ou não. O que temos que respeitar é a maturação. Uns têm maturação tardia, outros precoce. Isso é feito com muita cautela do Sub-17 para baixo. Tem atleta no Sub-15 que hoje não é titular, mas já detectamos que, a médio prazo, o jogador vai ter sucesso para jogar no profissional. Essa tem que ser a sensibilidade da base.

Olhando de fora, nós entendemos que o Sub-20 está inchado, mas ao mesmo tempo vemos poucos jogadores do Sub-17 subindo para disputar a Copinha. Essa balança está desfavorável? O Corinthians necessita de contratações para categorias menores?

Acho que contratação só para o Sub-20, porque nós encontramos aí uma lacuna nesse processo pós-Copa São Paulo. A equipe foi campeã, muitos atletas subiram para o profissional, outros já não têm mais ciclo de categorias de base e, ao que restou, no organograma da equipe, faltou peça. O primeiro passo é olhar para a Sub-17 e ver se tem algum atleta para começar a acelerar os processos. É o que estamos fazendo atualmente, temos atletas do Sub-17 que já atuaram como titular no Sub-20. O Lucas Pires, lateral-esquerdo, primeiro ano de Sub-17, já foi titular em dois jogos. O Felipe, volante, já está totalmente inserido no elenco do Sub-20. Com esses atletas nós já estamos acelerando o processo, mas é inevitável que ficou uma lacuna. Muitos atletas foram promovidos e outros estouraram a idade, venceu o ciclo. Por isso, começamos a fazer uma pesquisa de mercado em busca de atletas de base, com projeção, que tenham perfil de jogar no profissional do Corinthians. Estamos tentando, em três ou quatro peças pontuais, voltar a dar uma qualidade no elenco da categoria para manter o mesmo nível de competição como tem feito nos últimos anos. Disputamos as últimas quatro finais de Copa São Paulo e a minha preocupação também é essa, sei que é preciso ter um plantel qualificado.

Corinthians é o atual campeão da Copinha, principal torneio de base do país

Corinthians é o atual campeão da Copinha, principal torneio de base do país

Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians

Quais são os planos dessa diretoria para os próximos seis meses, já que 2018 é ano de eleição? Isso, de alguma forma, limita o trabalho de vocês aqui no departamento?

Infelizmente, esse trabalho que estamos desenvolvendo só vai dar frutos no terceiro ou quarto ano. Hoje, estamos obrigando os treinadores a ficarem full time no clube, sugerindo uma interação entre as categorias. O treinador do Sub-20 só treina na parte da manhã; à tarde, ele vai transitar em outras categorias. O treinador do Sub-13, que é o Célio Silva, só treina na parte da tarde; de manhã, ele tem transitado nas demais, dando treino específico para zagueiros... É um processo que todo treinador, teoricamente, terá um segundo auxiliar. O que eu quero com isso é acelerar o processo de interação, troca de informações e experiências.

Temos um conselho para tomar as decisões técnicas do clube, então, é um relatório para todas as decisões, não é só o treinador que decide. Por quê? Para não expor o treinador e também para que não tome nenhuma decisão por interesse pessoal. De repente o jogador atende à necessidade na categoria, por outro lado, é totalmente maturado e não tem projeção nenhuma para ser promovido. É preciso colocar na balança para ver até onde vale a pena manter esse atleta. O conselho é formado por treinador da categoria, auxiliar, chefe da captação, chefe da análise de desempenho, observador técnico e eu. É esse conselho que assina o documento. O jogador completa 16 anos, faz ou não contrato? É o conselho que decide. Com essas atitudes, a gente tenta minimizar os erros e ser o mais justo possível (...). Ganhar ou perder faz parte, mas eu não posso avaliar o treinador só pelo resultado. Preciso analisar o meu profissional pelo quanto ele está ajudando a otimizar o potencial do jogador. Se o atleta está aqui há um ano e não melhorou em nada, tem alguma coisa errada no processo. Ou na captação ou no treinador da categoria.

Então, esses processos de transição de treinador, de atletas, o resultado só vem no terceiro ou quarto ano. Quem vai colher provavelmente serão os jogador do Sub-15. Com todas as melhorias, eles devem chegar ao Sub-20 melhores do que os que lá estão hoje. No meio de tudo isso existe a eleição, ela é um fato. Eu vou continuar fazendo meu trabalho, porque o futebol não deveria ter ligação com a política. Vou fazer meu trabalho só pensando na melhoria do departamento de futebol amador. Se o próximo presidente entender que estamos fazemos um trabalho satisfatório, acho que é conveniente dar continuidade, até pela credibilidade da base, não é interessante ficar mudando muito, senão você quebra a continuidade.

Como jogador, Yamada integrou elenco do Corinthians campeão mundial de 2000

Como jogador, Yamada integrou elenco do Corinthians campeão mundial em 2000

Larissa Lima/Meu Timão

Veja mais em: Base do Corinthians, Alessandro, Fábio Carille, Copinha, Parque São Jorge e CT Joaquim Grava.

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    Sandro 2875 comentários

    por @poetacoruinthiano

    E com tantos talentos pra serem titular a gente sofre com um monte de perebas principalmente na reserva

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    Nego 220 comentários

    por @andson1992

    Gostei muito da proposta, pelo que entendi, a proposta é fazer algo melhor ou parecido com o que a seleção da Alemanha. Espero que nesta cartilha, seja adicionada a opção do Corinthians obter no mínimo 90% do passe de todos os jogadores.
    Se isso der certo, a base vai ter muito, muito sucesso.

    Excelente Matéria.

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    Carlos 426 comentários

    160º. por @carlaofiel

    Tem provas?

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    Marcio 6367 comentários

    159º. por @aqui.corinthians

    O Corinthians fatiou muitos jogadores da base na época do Gobbi, hoje isso já não acontece mais, pode ver as porcentagens que o Corinthians tem desses novos garotos como Maicon, Pedrinho, Mantuan entre outros. A base está se fortalecendo e com certeza trará muitos frutos ao Corinthians.

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    Hugo 8814 comentários

    158º. por @domhugoleonardo

    Muita conversa e promessas...

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    Vitor 1541 comentários

    157º. por @kafka

    Bela matéria. Está de parabéns o Meu Timão. Outras mais revelando as particularidades dos diversos departamentos do Clube, seriam interessantes. Possibilitaria que elogios e críticas dos leitores fossem mais embasadas. Chama a atenção é o tempo que esse clube centenário ficou praticamente parado no que se refere a estrutura. Especialmente se considerarmos que há dez anos, o time principal não tinha sequer um centro de treinamento. Jamais pensei que nos dias atuais as categorias de base não tivessem nem mesmo uma academia decente. Pêsames à alguns diretores que no passado lá estiveram por muitos anos. O Yamada me surpreendeu positivamente. Em post anterior até critiquei sua escolha por ser um ex-empresário de jogadores. Mostra competência e profissionalismo. O que torna difícil essa tarefa de continuidade, são as constantes alterações no quadro de funcionários sempre que temos novos eleitos para a presidência do clube. Eleição requer apoio e apoio requer cargos nem sempre qualificados.

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    F.r. 1537 comentários

    156º. por @ninjasccp

    Essa economia que pretendem acaba sendo irrelevante comparado com inúmeros gastos desnecessários, desviado e de contratos mal feitos. Vão acabar com o sonho de muitos garotos por 500 mil enquanto acobertam os empresários que roubam milhões da base anualmente. E "ex-empresário"? Sei...
    A base estava revelando e sendo campeã. Únicos problemas a ser resolvidos era terminar o CT pra aproximar do profissional pra em treinos já pegarem ritmo, garantir uma porcentagem a ser promovida e escalada, e o principal, expulsar esses empresários sangue-sugas.
    Temo que essa nova gestão estrague o que vinha dando certo e não consertem o que estava errado.

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    Junior 300 comentários

    155º. por @jr.picoli

    Não é questão de ter ou não perfil vencedor.
    A questão é que o perfil/estilo dele, não é o mesmo perfil do clube.

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    Ranking: 10º

    Luiz 20628 comentários

    154º. por @timao.in.rio

    Outro ponto que acho que deveria haver em relação a base é termos um escritório ou um representante oficial do clube na Europa (principalmente, leste Europeu), Oriente Médio e Ásia, ou seja, nos principais mercados financeiros do futebol, para se colocar esses jogadores que não são aproveitados pelo profissional. São jogadores com 20 anos que podem se destacar em mercados menos competitivos esportivamente, mas financeiramente vantajosos, e que se destacando podem receber chances em clubes de campeonatos top da Europa ou mesmo voltar com moral para o futebol brasileiro e com uma boa situação financeira conquistada. O Corinthians poderia reter parte dos direitos econômicos e faturar em futuras transações em cima desses meninos.

  • Foto do perfil de Luiz

    Ranking: 10º

    Luiz 20628 comentários

    153º. por @timao.in.rio

    Acho que nesse processo de formação o Corinthians tem que ter dentro de sua unidade uma escola, parece que já há um projeto para isso, e nela uma das disciplina ser o Corinthians e sua história, para que os jogadores-alunos possam conhecer melhor o clube e amá-lo. Muitos não são de São Paulo e chegam ao Corinthians sem ser torcedor do clube. O conhecimento da rica história corinthiana, vitórias e sofrimentos em todas as modalidades, fará com que o atleta se apaixone pelo clube e se doe naus, passe a ter o desejo de ser ídolo e sendo ídolo não queira já no primeiro ano de profissional ir para Europa.

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    Ranking: 10º

    Luiz 20628 comentários

    152º. por @timao.in.rio

    As ideias parecem boas, mas vamos ver na prática.

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    Ranking: 437º

    Amadeu 1426 comentários

    151º. por @colombo

    Yamada, pela entrevista que deu, parece ser a pessoa certa para fazer a reestruturação da base, acompanhando modelos como o do Barcelona. O estilo de jogo, padronizado do sub-15 ao sub-20, visando já a proficionalização do jovem atleta, ou seja, no mesmo estilo de jogo do Timão principal. Vai Corinthians...